Morte: Começo ou Fim?

“A meditação do sábio é uma meditação não da morte, mas da vida”.
(Spinoza)

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Morte: Começo, Fim ou Nenhum dos Dois: 4.1. A Morte como Começo; 4.2. A Morte como Fim; 4.3. A Morte: Nem Começo, Nem Fim.  5. Como Vemos a Morte: 5.1. Choque de Culturas; 5.2. Preparação para a Morte; 5.3. O Exemplo de Sócrates. 6. Expectativas para o Além-Túmulo: 6.1. Materialismo; 6.2. Panteísmo; 6.3. Dogmatismo Religioso; 6.4. Espiritismo. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

Como a humanidade pensa a morte? Por que a tememos? É concebível falar que a morte é o começo, o fim? Sob que ponto de vista? Mas o que é a morte? Como vê-la dentro da ótica espírita?

2. CONCEITO

Morte. Do lat. mortem – é a cessação da vida e manifesta-se pela extinção das atividades vitais: crescimento, assimilação e reprodução no domínio vegetativo; apetites sensoriais no domínio sensitivo. 

No âmbito da Doutrina Espírita, a morte é o desprendimento total do Espírito do corpo físico em conseqüência da ruptura do laço fluídico, que prende ou liga um ao outro, quando então há o falecimento. 

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A morte, simplesmente definida como ausência de vida, foi sempre vista como mistério, superstição e fascinação pelo ser humano.

Sócrates, na antiguidade, ensinava-nos que a filosofia nada mais era do que uma preparação para a morte. Platão dizia: “Filosofar é aprender a morrer”.

Nas sociedades tribais, o problema da morte não existia porque o indivíduo tinha um peso muito diminuto com relação à coletividade.

Dos animais, o homem é o único que sabe que vai morrer. 

A grande surpresa dos suicidas é verificar que a morte não acaba com a vida.

O medo da morte é universal: a) por causa da separação dos entes queridos; b) devido ao desconhecido.

A provisão de alimentos nos túmulos implica a crença na imortalidade da alma.

Embora na moderna sociedade, onde a expectativa de vida tem sido prolongada, a negação da morte é provavelmente sentida mais sutilmente e mais desesperadamente do que em outras épocas.  

Pascal convida todos os homens condenados à morte, a fugir do divertimento e pensar em sua salvação.

4. MORTE: COMEÇO, FIM OU NENHUM DOS DOIS

4.1. A MORTE COMO COMEÇO

Para todos os que creem na imortalidade da alma, a morte é um começo, começo de uma nova vida, a vida espiritual, a verdadeira vida. Platão, na antiguidade, já nos alertava a respeito da alma. Para ele, na sua Teoria das Ideias, a alma, depois que fez a sua passagem por este mundo, volta ao seu lugar de origem, denominado Topos Uranos.

4.2. A MORTE COMO FIM

Para os materialistas e existencialistas, a morte é o fim da vida. É o niilismo de que nos fala a filosofia. Por isso, a aflição e angústia que o ser humano sente em virtude de tudo terminar com a morte. O trabalho árduo de uma vida inteira termina num instante, como num piscar de olhos.

Pode-se entender também como o fim de uma etapa, etapa de encarnado.

4.3. A MORTE: NEM COMEÇO, NEM FIM

Para o Espiritismo, a morte não é começo nem fim; é a passagem do Espírito, que está na prova da carne, para o Espírito que estará em outra dimensão. É a transição, passagem, mudança de plano.

A doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, esclarece-nos acerca do problema da morte. Para inicio de conversa, a morte não existe. Deixamos aqui a veste física, mas o Espírito continua a sua jornada, levando consigo o seu Perispírito, que vai vagar no mundo espiritual, segundo seu peso específico. Mais precisamente, de acordo com o bem ou o mal que tiver feito durante sua existência terrena.

A morte é o desprendimento do Espírito do corpo físico. Lembremo-nos de que não é o Espírito que deixa o corpo, mas o corpo que, sem energia, sem fluido vital, solta-se do espírito, que é vivo e deixa-o ir para outras paragens. É como se fosse uma fruta madura, que cai da árvore.

Há casos, porém, que o encarnado apressa a sua data de validade. Observe o que aconteceu com o Espírito André Luiz, quando o chamaram de suicida. Foram os desleixos e os desmandos do corpo e do espírito que o levaram a desencarnar antes de sua hora. Quando vivemos uma vida plena, podemos dizer que somos completistas, ou seja, usufruímos de todo o tempo que nos foi ofertado pela Sabedoria de Deus, para o nosso avanço moral e espiritual.

5. COMO VEMOS A MORTE

5.1. CHOQUE DE CULTURAS

Os índios polinésios apreciam a morte: depois dos 40 anos, já começam a se preparar para a morte. Nos Estados Unidos, país tecnologicamente desenvolvido, acontece o contrário: a morte é interditada. Ninguém a cultua. Basta ver os cuidados que têm para com o defunto, deixando-o o mais embelezado possível. Simplesmente para transparecer que não morreu. Para isso, as casas de embelezamento de cadáveres (funeral home).

5.2. PREPARAÇÃO PARA A MORTE

Muitas pessoas têm uma preocupação mórbida para com a morte. Ficam pensando neste momento final da vida, querem saber o que vão sentir, se terão dor, sofrimento. Acontece que não temos experiência da morte. Simplesmente não fazemos mais parte dos encarnados, e sim dos desencarnados. O Espírito Irmão X, no livro Cartas e Crônicas, deixa-nos alguns conselhos: comece a renovação de seus costumes pelo prato de cada dia. Diminua gradativamente a volúpia de comer carne dos animais; deixe os testamentos em dia; não se apegue demasiado aos laços consangüíneos; convença-se de que se você não experimenta simpatia por determinadas pessoas, há muita gente que suporta você com muito esforço.

5.3. O EXEMPLO DE SÓCRATES

Sócrates, na antiguidade, foi obrigado a beber cicuta. Conta-se que seus amigos poderiam libertá-lo, tirá-lo da prisão. Deu seu exemplo; morre com dignidade. Poderia fugir da prisão, mas preferiu seguir o seu caminho de mártir. O mesmo podemos dizer de Jesus, que preferiu a morte na cruz para nos salvar. Ele também tinha condições de fugir, mas preferiu se render à cruz, para que se cumprisse os desígnios do Alto.  

6. EXPECTATIVAS PARA O ALÉM-TÚMULO

Os pensadores da humanidade desenvolveram, ao longo do tempo, três concepções de mundo: Materialista, Idealista e Religiosa. De acordo com essas concepções, construíram as diversas doutrinas. Vejamos algumas delas. 

6.1. MATERIALISMO  

A inteligência do homem é uma propriedade da matéria; nasce e morre com o organismo. Daí o niilismo. Sendo a matéria a única fonte do ser, a morte é considerada o fim de tudo. Como o homem é só matéria, os gozos materiais têm todo o fundamento. Por isso, Nietzsche o enfatizou sobremaneira. Nesse sentido, disse: “Niilismo: falta do fim; falta a resposta ao ‘por quê?’; o que significa niilismo? — que os valores supremos se desvalorizam” 

6.2. PANTEÍSMO  

Para o Panteísmo, o Espírito, ao encarnar, é extraído do todo universal; individualiza-se em cada ser durante a vida e volta, por efeito da morte, à massa comum. Voltando ao todo universal, sem individualidade e sem consciência de si mesmo, o ser é como se não existisse. As consequências morais desta doutrina assemelham-se as da doutrina materialista.  

6.3. DOGMATISMO RELIGIOSO 

Para o Dogmatismo Religioso, a alma, independente da matéria, é criada por ocasião do nascimento do ser; sobrevive e conserva a individualidade após a morte. A sua sorte já está determinada: os que morreram em "pecado" irão para o fogo eterno; os justos, para o céu, gozar as delícias do paraíso.  

6.4. ESPIRITISMO 

Para o Espiritismo, o Espírito, independente da matéria, foi criado simples e ignorante. Todos partiram do mesmo ponto, sujeitos à lei do progresso. Aqueles que praticam o bem, evoluem mais rapidamente e fazem parte da legião dos "anjos", dos "arcanjos" e dos "querubins". Os que praticam o mal, recebem novas oportunidades de melhoria, através das inúmeras encarnações. (Kardec, 1975 p. 193 a 200) 

7. CONCLUSÃO  

A morte marca o fim de um período, a existência do ser encarnado, que teve oportunidade de redimir de alguns erros e se preparar para o porvir, que o espera além-túmulo.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed. São Paulo: Feesp, 1995.

KARDEC, A. Obras Póstumas. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975.

São Paulo, junho de 2011

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