Lei de Adoração

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2.Conceito. 3. Histórico. 4. Hierofanização. 5. O sagrado. 6. Finalidade da adoração. 7. Formas de Adoração: 7.1. Adoração exterior; 7.2. Prece; 7.3. Politeísmo; 7.4. Sacrifícios. 8. Conclusão. 9. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo consiste na observação do sentimento de adoração, inato no ser humano, porém influenciado pelas hierofanias das diversas religiões.

2. CONCEITO

A palavra adorar vem do latim ad e orare que significa orar para alguém. É o gesto que traduz o sentimento de admiração, de espanto, de temor, de reverência e de amor do homem para com a Divindade, em si, nas suas manifestações e nos seus representantes. (Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura)

Dependendo do sistema religioso no qual estivermos inseridos, optamos por um tipo de vivência religiosa, em que expressamos as nossas atitudes de dependência e submissão ao Ser Supremo, de forma racional ou dogmática.

3. HISTÓRICO

A tradição histórica mostra que a veneração de um Ser Supremo existe desde a antigüidade. Há registros de que o homem de Neanderthal, há 150.000 anos, enterrava os mortos junto com objetos de uso diário, evidenciando a crença numa vida futura. Em cada etapa do processo histórico, fomos idolatrando a divindade de acordo com o horizonte alcançado nesses estados de compreensão.

Assim:

1) Nas religiões primitivas. Entre os primitivos, esse sentimento originário, muito indiferenciado ainda irrompe em exclamações de terror sacro ante o poder do numinosum e do fascinosum, tais como: Mana, Tabo, Orenda, Vacanda, Manitu etc.

2) Nas religiões médio e próximo orientais. O que nos primitivos era espontâneo assume, aqui e agora, um aspecto estudado e ritual. A sua forma mais freqüente é a prostração. Esta pode ser total — joelhos e face em terra, como ainda hoje entre os Muçulmanos — ou parcial, equivalente à genuflexão, simples ou dupla. A adoração faz-se no templo e fora dele, tendo, neste caso, o fiel o cuidado de orientar toda a sua pessoa na direção do lugar santo.

3) Nas religiões greco-latina. Traduzindo, sobretudo, o sentimento de reconhecimento, do respeito e do amor, o gesto com que o homem clássico "adora" uma divindade ou um mortal consiste num simples beijo enviado na ponta dos dedos. A prostração e até a simples genuflexão são por ele consideradas costumes "bárbaros". Mas, com a orientalização da Grécia e de Roma, esses costumes tornam-se correntes, aplicando-se, não apenas aos deuses, mas aos homens investidos do poder ou da glória. (Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura)

4) J. Herculano Pires em O Espírito e o Tempo retrata este histórico em termos de horizontes: tribal (mediunismo primitivo), agrícola (animismo), civilizado (mediunismo oracular), profético (mediunismo bíblico) e espiritual (mediunidade positiva).

4. HIEROFANIZAÇÃO

Ao lembrarmo-nos de que algumas religiões utilizam-se da Litolatria (adoração das pedras), da Fitolatria (adoração das árvores) e da Zoolatria (adoração dos animais), logo vem à nossa mente a imagem de pouca racionalidade desses cultos. Falta-nos uma melhor compreensão do termo hierofania.

A hierofania é o ato da manifestação do sagrado. A história das religiões tem um número considerável de hierofanias, ou seja, todas as manifestações das realidades religiosas. É isso o que explica o sagrado manifestando-se em pedras, animais, árvores etc. (Eliade, 1957, p. 25)

Não são as pedras, as árvores, os animais e os objetos que são adorados, mas sim o que eles representam para a coletividade.

Um exemplo clássico nos dias atuais: adoração da vaca na Índia. A vaca da Índia é igual a todas vacas do planeta. Mas quando esse animal sofre um processo de hierofanização, ele torna-se um animal sagrado.

Na Idade Média, tínhamos a cruz representando o combate ao mal.. A cruz era feita de madeira como qualquer outra cruz. Contudo, diante do processo de hierofanização, ela servia para expulsar os "demônios".

5. O SAGRADO

O sagrado é a manifestação de uma realidade de ordem inteiramente diferente da das realidades "naturais". Tem como contrapartida a noção de profano. (Eliade, 1957, p. 24). O próprio espaço, para o homem religioso, não é homogêneo: o espaço apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. "Não te aproximes daqui, disse o Senhor a Moisés, descalça as sandálias; porque o lugar onde te encontras é uma terra sagrada" (Êxodo, III, 5). (Eliade, 1957, p. 35)

Em se tratando do sagrado, há também a crença no Deus Otiosus, que é o fenômeno do "afastamento" do Deus supremo é já atestado aos níveis arcaicos de cultura. Entre os australianos Kulin, o Ser Supremo Bundjil criou o Universo, os animais, as árvores e o próprio homem; mas, depois de ter investido em seu filho o poder sobre a Terra, e a sua filha o de providenciar no Céu, Bundjil retirou-se do mundo. Na África, os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num Deus do Céu, denominado Olorum (literalmente proprietário do céu) que, após haver iniciado a criação do mundo, incumbiu um Deus inferior, Obatala, de conclui-lo e governá-lo. Quanto a Olorum, afastou-se, sendo invocado como último recurso. (Eliade, 1957, p. 132-134)

Convém lembrar que, além da religião, o direito, a ética, a estética, a política, o casamento, a família, o sexo, a morte, a arte, a arquitetura e muitos outros aspectos da vida são igualmente envolvidos pelo sagrado. Situemos, como exemplo, o Direito: a arquitetura dos tribunais, a toga do juiz, o ritual das sessões dos tribunais, mesmo o uso de símbolos religiosos para o juramento, por exemplo, apontam certos aspectos da instituição do direito que têm pelo menos certo sabor de sagrado. Nos Estados Unidos, em qualquer circunstância, um juiz da Suprema Corte tem, aos olhos do homem médio, um status muitíssimo mais alto que o de um sociólogo, e um cientista social está muito mais sujeito a olhar como um servo para o tribunal do que a vê-lo como uma ameaça. (Boulding, 1974, cap. 4)

6. FINALIDADE DA ADORAÇÃO

A finalidade da adoração é a elevação do pensamento a Deus. Pela adoração o homem aproxima dEle a sua alma. A consciência de sua fraqueza leva o homem a se curvar diante dAquele que o pode proteger. Nesse sentido, jamais houve povos ateus. Todos compreendem que há acima deles, um Ser supremo. É por isso que a Lei de Adoração é uma lei natural, ou seja, não cremos em Deus pela lucubração de nossos pensamentos, mas por um sentimento que é inato em todos os seres viventes. (Kardec, 1995, perguntas 649 a 652).

Esse sentimento, porém, toma em cada tipo de religião uma forma determinada. É o atendimento da necessidade interior de cada um de nós. Por isso, se já estamos num nível mais avançado de racionalidade não devemos nos achar superiores ou mesmo tratar com desprezo os que se utilizam de meios ainda menos racionais. O que importa é o que a pessoa sente e não tanto a forma externa de manifestação.

7. FORMAS DE ADORAÇÃO

7.1. ADORAÇÃO EXTERIOR

Diz-nos Allan Kardec que a verdadeira adoração é a do coração. Contudo, se a adoração exterior não for um fingimento, tem o seu mérito, visto Deus pesar mais as intenções do que o ato em si. Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal. Aquele que se vangloria de adorar o Cristo mas que é orgulhoso, invejoso e ciumento, que é duro e implacável para com os outros ou ambicioso de bens mundanos, só tem a religião dos lábios e não no coração. (Kardec, 1995, perguntas 653 a 656).

7.2. PRECE

A prece é um ato de adoração. Fazer preces a Deus é pensar nEle, aproximar-se dEle, por-se em comunicação com Ele. Pela prece podemos fazer três coisas: louvar, pedir e agradecer. O essencial não é orar muito, mas orar bem. Há pessoas que julgam que todo o mérito está na extensão da prece e fecham os olhos para os seus próprios defeitos. Estes não estão orando corretamente. (Kardec, 1995, perguntas 658 a 666)

7.3. POLITEÍSMO

A idéia de um Deus único só podia aparecer como o resultado do desenvolvimento mental do homem. Incapaz, na sua ignorância, de conceber um ser natural, sem forma determinada, agindo sobre a matéria, ele lhe havia dado os atributos da natureza corpórea, ou seja, uma forma e uma figura, e desde então tudo o que lhe parecia ultrapassar as proporções da inteligência comum tornava-se para ele uma divindade. Tudo quanto não compreendia devia ser obra de um poder sobrenatural, e disso a acreditar em tantas potências distintas quanto efeitos pudesse ver, não ia mais do que um passo. Mas em todos os tempos houve homens esclarecidos, que compreenderam a impossibilidade dessa multidão de poderes para governar o mundo sem uma direção superior, e que se elevaram ao pensamento de um Deus único. (Kardec, 1995, pergunta 667)

7.4. SACRIFÍCIOS

Os homens primitivos acreditavam que uma criatura animada teria muito mais valor aos olhos de Deus do que um corpo material. Foi esse o motivo que os levou a imolar primeiramente os animais e depois o próprio ser humano, pois, segundo sua falsa crença, pensavam que o valor do sacrifício estava em relação com a importância da vítima.

Deus julga sempre a intenção. Amparar os pobres e os aflitos é o melhor meio de homenageá-Lo. Desta forma, Deus desaprova as cerimônias que fazemos em nossas preces, pois há muito dinheiro que se poderia empregar mais utilmente. O homem que se prende à exterioridade e não ao coração é um espírito de vista estreita. (Kardec, 1995, perguntas 669 a 673)

8. CONCLUSÃO

O tipo de reverência, em que a verdadeira adoração é a que provém do coração, ainda é difícil de ser praticada para a maioria dos viventes. Contudo, não há outra forma de atingirmos um perfeito relacionamento com a Divindade: o estádio de evolução mais avançado exige esforços constantes da razão.

9. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BOULDING, K. E. O Impacto das Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Zahar, 1974.

ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. Lisboa, Livros do Brasil, 1957?

Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Lisboa, Verbo, s. d. p.

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed., São Paulo, FEESP, 1995.

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