Frustração e Consolo

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. conceito. 3. Aspectos gerais. 4. Impopularidade; 4.1. Contradição Socrática: 4.2. A Política Segundo o Espiritismo. 5. Dinheiro Insuficiente: 5.1. O Ponto de Vista do Epicurismo; 5.2. A Desigualdade das Riquezas Segundo o Espiritismo  6. Sobre a inadequação: 6.1. Inadequação Sexual: 6.1.1. Observações de Montaigne; 6.1.2. Posição de André Luiz e Emmanuel. 6.2. Inadequação para a Cultura: 6.2.1. Montaigne e a Arrogância das Pessoas; 6.2.2. O Progresso na Ótica Espírita. 6.3. Inadequação Intelectual: 6.3.1. O Conhecimento Verdadeiro Segundo Montaigne; 6.3.2. Os Pobres de Espírito. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é refletir sobre os diversos tipos de frustrações – impopularidade, falta de dinheiro, inadequação – e as respectivas consolações oferecidas tanto pela Filosofia quanto pelo Espiritismo.

2. CONCEITO

Frustração – do lat. frustratio que vem do advérbio frustra (em vão, debalde). Ação de impedir que um ser atinja o objetivo ao que tende pela sua própria dinâmica. Estado em que se encontra o organismo quando depara com um obstáculo mais ou menos importante no caminho que o leva à realização completa de um comportamento. 

Em Psicanálise designa a privação sentida como injusta, de satisfações materiais ou psíquicas.

Consolar  - do lat. consolare - significa aliviar ou  suavizar  a  aflição,  o sofrimento, o padecimento; dar lenitivo  a,  mitigar,  confortar. 

3. ASPECTOS GERAIS

Embora o terreno das frustrações possa ser vasto – inclui todos os tipos de dificuldades que o ser humano está sujeito –, no âmago de cada frustração encontra-se uma estrutura fundamental: o choque entre um desejo e uma realidade imutável.

Em termos do ser humano, a criança passa por uma série de frustrações necessárias à sua educação: desmame, aprendizagem de limpeza, interdições diversas.

No adulto, as frustrações mais sentidas são as de ordem afetiva: decepções sentimentais, perda de entes queridos, desprezo, impopularidade etc. Pode também ser afetado por incômodos materiais: vizinhos barulhentos, colegas de trabalho que obtêm vantagem de que ele é privado. (Dicionário de Psicologia)

Uma tendência frustrada nunca perde o seu dinamismo. No animal, e no homem, quando este não usa a sua razão, esse dinamismo pode transformar-se em agressividade. O cão pode morder aquele que lhe tira o alimento; o homem, desprovido da razão, pode se encolerizar facilmente quando defrontado por uma contrariedade corriqueira.

Há diversas maneiras de se administrar uma frustração. Um ideal nobre rechaçado pode se transformar em boêmia ou uma vida voltada para a interioridade religiosa; um amor partido pode ser deslocado para a solidão ou para uma experiência voltada ao auxílio ao próximo.

A frustração pode ser um elemento motivador por excelência, desde que o indivíduo canalize a sua força para projetos que propiciem o aperfeiçoamento do Espírito imortal. (Enciclopédia de Moral e Civismo)

4. IMPOPULARIDADE

Impopularidade é não ter a estima geral, não ser reconhecido publicamente, não ter o nome estampado nas colunas de jornais e revistas.

4.1. A CONTRADIÇÃO SOCRÁTICA

Sócrates, filósofo que viveu na Grécia do ano 470 a 401 a.C., oferece-nos subsídios para enfrentarmos a impopularidade.

Sócrates era um tipo de aspecto cômico, calvo, nariz grosso e rebitado e largas barbas. À semelhança do Cristo não nos deixou nada escrito. Tudo o que dele sabemos veio por intermédio do seu discípulo Platão.

Sabe-se que ele fora condenado à morte por três razões:

a)      Não venerar os deuses da cidade;

b)      Introduzir inovações religiosas;

c)      Corromper os jovens de Atenas.

Segundo relato de Platão, ele desafiou o júri com as seguintes palavras: “enquanto eu puder respirar e exercer minhas faculdades físicas e mentais, jamais deixarei de praticar a filosofia, de elucidar a verdade e exortar todos que cruzarem meu caminho a buscá-la (...) Portanto, senhores (...) seja eu absolvido ou não, saibam que não alterarei minha conduta, mesmo que tenha de morrer cem vezes”.

O fato de ser acusado por um júri e ser relegado à impopularidade não abalou as suas convicções filosóficas. Na vida e na morte de Sócrates havia um convite ao ceticismo inteligente.

Para a cidade grega, a opinião da maioria equiparava-se à verdade. Lembremo-nos de que o júri encarregado de julgar Sócrates era movido por evidente preconceito. Todos haviam sido influenciados pela caricatura que Aristófanes havia feito de Sócrates e achavam que o filósofo exercera alguma influência nos acontecimentos desastrosos que haviam assolado a cidade, cujos dias de esplendor, naquele final de século, haviam chegado ao fim.

A filosofia de Sócrates ensina-nos a não dar muita atenção a uma idéia contrária. É preciso verificar o peso de tal idéia. (De Botton, 2001, Cap I)

4.2. A POLÍTICA SEGUNDO O ESPIRITISMO

De acordo com a orientação dos amigos espirituais, o homem não tem necessidade de poder e de popularidade; basta que se submeta à vontade de Deus. Na maioria das vezes, a popularidade é um entrave ao cumprimento de seu dever como espírita. Observe a aspiração de uma posição social de destaque: uma vez obtida, mudam-se os valores, os deveres e os relacionamentos, faltando-nos, inclusive, tempo para as práticas Espíritas.

Vejamos o que nos diz o Espírito Emmanuel acerca da política. 

“O sincero discípulo de Jesus está investido de missão mais sublime, em face da tarefa política saturada de lutas materiais. Essa é a razão por que não deve provocar uma situação de evidência para si mesmo nas administrações transitórias do mundo. E quando convocado pelas circunstâncias não deve aceitá-la como galardão para a doutrina que professa, mas como provação imperiosa e árdua, onde todo êxito é sempre difícil. O espiritista sincero deve compreender que a iluminação de uma consciência é como se fora a iluminação de um mundo, salientando-se que a tarefa do Evangelho, junto das almas encarnadas na Terra, é a mais importante de todas, visto constituir uma realização definitiva e real. A missão da doutrina é consolar e instruir, em Jesus, para que todos mobilizem as suas possibilidades divinas no caminho da vida. Trocá-la por um lugar no banquete dos Estados é inverter o valor dos ensinos, porque todas as organizações humanas são passageiras em face da necessidade de renovação de todas as fórmulas do homem na lei do progresso universal”. (Xavier, 1977, pergunta 60)

5. DINHEIRO INSUFICIENTE

É a falta de recursos financeiros para o sustento da vida, para a realização de um projeto, de uma viagem etc.

5.1. O PONTO DE VISTA DO EPICURISMO

Epicuro é o filósofo que trata da questão do prazer. Nasceu em 341 a.C. na verdejante ilha de Samos, a poucos quilômetros da Costa da Ásia Menor ocidental. Começou a ocupar-se da filosofia aos 14 anos, passando a viajar para ouvir lições do platônico Panfilo e do atomista Nausífanes. Consta que escreveu 300 livros sobre todos os assuntos: música, ética, natureza etc. Para ele “O prazer é o princípio e o fim da vida feliz”. Confessou também sua paixão pela boa mesa: “A fonte e a raiz de todo bem é o prazer do ventre”.

Aqueles que deram ouvidos a boatos devem ter se surpreendido quando descobriram as verdadeiras preferências do filósofo do prazer. A casa onde morava não era luxuosa. A comida era simples. Epicuro preferia a água ao vinho e contentava-se com um jantar que incluía pão, legumes e um punhado de azeitona. Falava sempre da felicidade e da amizade. Dizia que o sábio não escolhe a maior quantidade comida, mas a mais agradável.

O ponto crucial da tese de Epicuro é que, se temos dinheiro e não temos amigos, liberdade e uma vida baseada na reflexão, jamais seremos verdadeiramente felizes. E, se temos tudo, com exceção do dinheiro, jamais seremos infelizes.

Por que então escolhemos coisas caras se elas não podem nos trazer alegria extraordinária? De acordo com Epicuro somos influenciados por “opiniões vãs”, que não refletem a hierarquia natural de nossas necessidades, enfatizando o luxo e a riqueza, raramente a amizade, a liberdade e a reflexão. (De Botton, 2001, cap. II)

5.2. A DESIGUALDADE DAS RIQUEZAS SEGUNDO O ESPIRITISMO

Como analisar a riqueza no âmbito da Doutrina Espírita?

1) De acordo com os Espíritos superiores, tanto a pobreza como a riqueza são provas que os Espíritos reencarnantes devem passar. Dizem-nos que a riqueza é uma prova mais difícil do que a pobreza porque incita a luxúria, a preguiça, a incúria etc. (Kardec, 1995, perguntas 808 a 816)

2) Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec chama-nos a atenção sobre a aquisição de poder e autoridade. De acordo com as instruções dos Espíritos, “A autoridade, da mesma forma que a fortuna, é uma delegação da qual serão pedidas contas àquele que dela se acha investido; não creiais que lhe seja dada para lhe proporcionar o vão prazer de comandar, nem, assim como crêem falsamente a maioria dos poderosos da Terra, como um direito, uma propriedade”. (Kardec, 1984, p. 229) Deus as dá como prova ou missão e as retira quando lhe apraz.

3) O preceito evangélico “tendo sustento e com o que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” deve ser sempre ponderado quando nos faltam recursos financeiros.

6. SOBRE A INADEQUAÇÃO

Inadequação é a não conformidade ou não correspondência exata entre os termos de uma relação. Desajustamento. É como o patinho feio na estória infantil ou a ovelha desgarrada na narrativa parabólica.

Montaigne é o filósofo escolhido para tratar deste assunto. Ele viveu na França no século XVI. Montaigne preferia viver encerrado em uma biblioteca, no castelo herdado de seus antecedentes. Na infância já tivera contato com os clássicos. Fora alfabetizado em latim. Ler era o refrigério de sua vida: “a leitura me consola em minhas horas de recolhimento; ela me alivia do peso de uma ociosidade penosa e, a qualquer instante, é capaz de livrar-me de companhias maçantes. Ela entorpece dores que podem se tornar dilacerantes. Para me distanciar de pensamentos soturnos, simplesmente necessito recorrer aos livros”.

6.1. INADEQUAÇÃO SEXUAL

6.1.1. OBSERVAÇÕES DE MONTAIGNE

Para Montaigne é bastante problemático termos um corpo e uma mente, pois o primeiro forma um contraste quase monstruoso com a dignidade e a inteligência da última, fraqueja, lateja, pulsa e envelhece, nos obriga a arrotar e a soltar gases. Obriga-nos a preterir projetos sensatos, em troca de algumas horas de suor na cama, em companhia de pessoas que se unem a nós na emissão de sons tão intensos que fazem lembrar hienas chamando umas às outras na aridez descampada dos desertos americanos.

Montaigne conhecia homens sobrepujados por seus anseios sexuais que davam um fim a seu tormento castrando-se. Outros tentavam reprimir sua lascívia aplicando sobre os testículos excessivamente ativos compressas de vinagre com neve.

Tratou da falta de ereção masculina e uma forma de aliviar tal sensação de impotência: o homem devia conversar abertamente com sua mulher sobre estar sujeito a essa enfermidade. (De Botton, 2001, cap. IV, item 2)

6.1.2. POSIÇÃO DE ANDRÉ LUIZ E EMMANUEL

O Espírito André Luiz, no capítulo XVII de Evolução em Dois Mundos, fala-nos que a sede real do sexo não se acha no veículo físico, mas sim na entidade espiritual, em sua estrutura complexa. Diz-nos também que o sexo é mental em seus impulsos e manifestações.

O Espírito Emmanuel em Vida e Sexo trata de diversos assuntos sobre sexo e sexualidade, advertindo-nos que toda a anomalia sexual tem íntima relação com o processo reencarnatório da criatura. Assim o marido infiel de hoje é aquele espírito que a esposa desprezou numa outra oportunidade. A homossexualidade de hoje está relacionada com os abusos da faculdades genésicas de outras existências.

6.2. INADEQUAÇÃO PARA A CULTURA

6.2.1. MONTAIGNE E A ARROGÂNCIA DAS PESSOAS

Montaigne diz que outra causa da inadequação é a rapidez e arrogância com que as pessoas parecem dividir o mundo de dois campos, o campo normal e o do anormal.

Ao viajar pelo mundo, Montaigne pode observar que os nativos mantêm os seus hábitos arraigados e criticam o modo de vida dos estrangeiros. Era de espantar a convicção inabalável da superioridade de cada sistema sobre os demais. Cada nação tem muitos costumes e práticas que não só desconhecem com consideram bárbaros e motivo de assombro de outra. (De Botton, 2001, cap. IV, item 3)

6.2.2. O PROGRESSO NA ÓTICA ESPÍRITA

O progresso reunirá um dia todos os povos da Terra em uma só nação? Não em uma só nação, o que é impossível, pois da diversidade dos climas nascem costumes e necessidades diferentes, que constituem as nacionalidades. Disto resulta que cada povo terá uma maneira peculiar de se comportar. O que os Espíritos nos alertam é que embora haja diversidade de gostos, de atitudes, a caridade é o único guia seguro pois não conhece latitudes. (Kardec, 1995, pergunta 789)

6.3. INADEQUAÇÃO INTELECTUAL

6.3.1. O CONHECIMENTO VERDADEIRO SEGUNDO MONTAIGNE

O que as pessoas inteligentes devem saber? Para muitas escolas, ser inteligente consiste em resolver questões. Depois de ter experimentado muitas realizações intelectuais, Montaigne acrescenta: “se o homem fosse sábio, mediria o verdadeiro valor de qualquer coisa de acordo com a sua utilidade e pertinência em sua vida. Somente o que nos faz sentir melhor merece ser compreendido”.

Devemos descobrir não quem sabe mais e sim quem sabe melhor. Nosso esforço se concentra apenas em encher a memória, e não deixamos espaço para o entendimento da vida e a noção do certo e do errado. (De Botton, 2001, cap. IV, item 4)

6.3.2. OS POBRES DE ESPÍRITO

Jesus disse: “Bem-Aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino de dos céus”. Por pobres de Espírito Jesus não entende os desprovidos de inteligência, mas os humildes. Ele revela os mistérios da vida espiritual aos simples e não aos doutos, porque estes enfastiados do saber mundano acabam menosprezando as coisas do Espírito. Por esta passagem temos plena certeza de que o verdadeiro conhecimento não se encontra no intelecto, mas na elevação moral e espiritual que um ser consegue amealhar durante a sua vida, tanto como encarnado como desencarnado. (Kardec, 1994, cap. VII, itens 1 e 2)

7. CONCLUSÃO

A filosofia, para ser uma filosofia eficaz, deve gerar idéias que tragam consolo à alma do sujeito cognoscente. O Espiritismo, para ser um Espiritismo verdadeiro, deve elucidar as consolações prometidas por Jesus.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro, M.E.C., 1967.
DE BOTTON, A. As Consolações da Filosofia. Tradução de Eneida Santos. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
GAUQUELIN, M. e F. Dicionário de Psicologia. Lisboa/São Paulo, Verbo, 1987.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo: IDE, 1984.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed., São Paulo, FEESP, 1995.
XAVIER, F. C. e VIEIRA, W. Evolução em Dois Mundos, pelo Espírito André Luiz, 4. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.
XAVIER, F. C. Vida e Sexo, pelo Espírito Emmanuel. 4. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1978.
XAVIER, F. C. O Consolador, pelo Espírito Emmanuel. 7. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1977. 

São Paulo, fevereiro de 2003

Entrevista publicada no Jornal Diário de São José do Rio Preto (Diarioweb.com.br).

 

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