Fraternidade

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. A Realidade Atual: 4.1. O Homem como Lobo do próprio Homem; 4.2. A Luta de Classes; 4.3. Os Desvios Políticos. 5. Os Ensinamentos Jesus Cristo: 5.1. Pregação Evangélica; 5.2. Antes e depois de Jesus; 5.3. O Amor pelo Inimigo, o Ponto Alto dos seus Ensinamentos. 6. As Instruções do Espírito Emmanuel: 6.1. Fraternalmente Amigos; 6.2. Amizade e Compreensão; 6.3. Outros Pensamentos sobre a Fraternidade. 7. Conclusão. 8. Bibliografia.

1. INTRODUÇÃO

O que se entende por fraternidade? A humanidade faz uso dela? Quem é irmão de quem? Não seria mais fácil detectar quem é lobo de quem? O roteiro de nossa exposição segue os seguintes pontos: 1) a situação atual da sociedade; 2) os ensinamentos de Jesus; 3) instruções do Espírito Emmanuel.

2. CONCEITO

Fraternidade – do latim fraternitate – significa "irmandade" ou "conjunto de irmãos". Em sentido estrito, exprime simplesmente o sentimento de afeição recíproca entre irmãos. O Cristianismo fundamentou-a através do preceito da caridade, inculcando o amor a todos os homens, mesmo aos inimigos, já que todos descendem, pela criação, de um mesmo pai, Deus. Isenta da noção religiosa, os espíritos nunca foram além da idéia de solidariedade social.

Atualmente: parentesco de irmãos; irmandade, amor ao próximo; união ou convivência como irmãos; harmonia, paz, concórdia.

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Desde a Antiguidade há a idéia de que todos os homens faziam parte de uma grande família. Sêneca dizia que "A natureza fez de nós uma família" e Marco Aurélio que "O universo é como uma cidade". Houve, contudo, a tendência de limitar tal sentimento aos membros de uma nação e de excluir dele os escravos. Aristóteles e outros filósofos, por exemplo, achavam que os escravos não podiam ser irmãos dos homens livres. Os ideais da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – nada mais são do que a laicização de uma idéia-força tipicamente cristã. Na sua pessoa, doutrina e ação, Jesus Cristo veio revelar e tornar possível a fraternidade num grau insustentável: nele foi dado a conhecer aos homens serem eles chamados a uma verdadeira e sublime fraternidade, a de filhos do mesmo Pai celeste.

4. A REALIDADE ATUAL

4.1. O HOMEM COMO LOBO DO PRÓPRIO HOMEM

A irmandade entre as pessoas é um fato concreto nas vivências religiosas. Ocorre que, diante da realidade, muitas vezes trágica, sempre surge a questão: os homens são lobos ou irmãos em seus relacionamentos? A base do pensamento individualista moderno é constituído pela concepção de que o homem é lobo do homem. Nesse sentido, a vida é regida pela competição em que os mais aptos devem triunfar. Assim sendo, a irmandade fica reduzida a um pequeno grupo de amigos íntimos, unidos por laços de famílias ou interesses comuns. (Idígoras, 1983)

4.2. A LUTA DE CLASSES

O pensamento marxista desenvolve-se nessa mesma linha com a diferença de que já não fala dos indivíduos na luta pelos bens sociais, mas sim de classes sociais. Neste caso, uma classe social fica sendo o lobo da outra classe social. Por isso, a luta entre o proletariado e o capitalista. Falar de uma fraternidade que transcende a própria classe constitui uma traição, pois enfraquece o potencial de luta e adia a vitória necessária e definitiva do proletariado. A conseqüência é a inimizade e o ódio entre as pessoas.

4.3. OS DESVIOS POLÍTICOS

O ser humano, quando é alçado a um cargo público, deveria praticar a fraternidade universal, que é o devido cuidado do bem público. Mas o que vemos? Boa parcela dos políticos procura cuidar muito mais dos seus interesses particulares ou do seu partido do que os da nação. Daí, a apatia que medra no meio da população, porque esta se sente enganada por aqueles que lá foram enviados.

5. OS ENSINAMENTOS DE JESUS CRISTO

5.1. PREGAÇÃO EVANGÉLICA

Jesus não veio para destruir a Lei de Deus, mas para lhe dar execução. Fala do amor que se deve ter para com todos os homens, inclusive estendendo aos inimigos, porque todos somos filhos de um mesmo Pai. Eis algumas de suas sentenças:

  • Ninguém acende uma lâmpada para pô-la atrás do armário, mas para pô-la no candelabro, a fim de que todos a vejam.

  • Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.

  • Se vossa mão é motivo de escândalo, cortai-a.

  • Amar ao próximo como a si mesmo.

  • Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?

  • Amai os vossos inimigos; bendizei os que vos maldizem; fazei bem aos que vos odeiam; orai pelos que vos maltratam e vos perseguem. Que vantagem há em amardes os que vos amam?

  • Ao que pleitear contigo e quiser o teu vestido, larga-lhe também a capa.

  • Se alguém vos bate na face direita, apresentai-lhe também a outra.

  • 5.2. ANTES E DEPOIS DE JESUS

    A vinda do Mestre modificou o cenário do mundo. Emmanuel em Roteiro diz-nos que antes de Cristo, a educação demorava-se em lamentável pobreza, o cativeiro era consagrado por lei, a mulher aviltada qual alimária, os pais podiam vender os filhos etc. Com Jesus, entretanto, começa uma era nova para o sentimento. Iluminados pela Divina influência, os discípulos do Mestre consagram-se ao serviço dos semelhantes; Simão Pedro e os companheiros dedicam-se aos doentes e infortunados; instituem-se casas de socorro para os necessitados e escolas de evangelização para o espírito popular etc. (Xavier, 1980, cap. 21)

    5.3. O AMOR PELO INIMIGO, O PONTO ALTO DOS SEUS ENSINAMENTOS.

    Não resta dúvida que este ensinamento foi o mais revolucionário de todos. A lógica e a razão ainda não se contentaram com essa assertiva. A pergunta persiste: como amar aquele que nos prejudicou, que nos condenou, que nos injuriou e nos ofendeu publicamente? A reação automática é: "olho por olho e dente por dente". Contudo, para seguir o Mestre, devemos modificar a resposta do homem velho e transformá-la na do homem novo, ou seja, reagir com o perdão. Nesse sentido, os amigos espirituais orientam-nos que não somos obrigados a amar os inimigos como amamos os nossos amigos; basta apenas respeitá-los como seres humanos, sujeitos às mesmas fraquezas que as nossas. Além disso, pedem também para que tenhamos calma em nossa apreciação, pois em qualquer situação difícil, não se sabe, com certeza, quem deu o primeiro passo.

    6. AS INSTRUÇÕES DO ESPÍRITO EMMANUEL

    6.1. FRATERNALMENTE AMIGOS

    O Espírito Emmanuel convida-nos a refletir sobre os ganhos que a experiência nos facultou: com ela adquirimos uma nova maneira de interpretar a vida, amadurecemos o nosso raciocínio e percebemos aspectos da realidade que outros nem de leve cogitam. Entretanto, seja qual seja a condição em que nos encontramos, podemos estender os braços unindo-nos aos semelhantes, através da compreensão e do auxílio mútuo. O apóstolo não nos diz: "sede todos da mesma altura", mas sim: "sede todos fraternalmente unidos". Não nos exige, pois, o Evangelho venhamos a ser censores ou escravos uns dos outros, e, sim, nos exorta a que sejamos irmãos. (Xavier, 1986, p. 244)

    6.2. AMIZADE E COMPREENSÃO

    Nesta lição o Espírito Emmanuel diz que "Muitos companheiros de luta exigem cooperadores esclarecidos para as tarefas que lhes dizem respeito, amigos valiosos que lhes entendam os propósitos e valorizem os trabalhos, esquecidos de que as afeições quanto as plantas, reclamam cultivo adequado". Lembra-nos de que o próprio Cristo semeou, primeiramente, o ideal divino no coração dos apóstolos, antes de recolher-lhes o entendimento. O Apóstolo Paulo, sabedor dessa psicologia, não conquistou a estima impondo princípio, mas sim, orando e servindo, trabalhando e amando. Façamos o mesmo: cuidemos de adubar e irrigar a planta; a colheita vem a seu tempo. (Xavier, 1972, p. 256)

    6.3. OUTROS PENSAMENTOS SOBRE A FRATERNIDADE

    "Quem é minha mãe e quem são os meus irmãos" é um ensinamento de Jesus que nos remete à fraternidade universal, porque extrapola o círculo de convivência no reduto familiar.

    "O amor ao próximo inclui o esclarecimento fraterno", porque a sujeição passiva pode dilatar o processo de agressividade.

    "O homem terrestre tem inventado numerosos artifícios para a legitima defesa, mas toda a defesa legitima está em Deus". Evitar, a todo o custo, cair no nível do agressor, mesmo que todas as sugestões fraternas tenham fracassado.

    A terra não deve ser considerada uma penitenciária, mas uma escola de fraternidade para o aperfeiçoamento e regeneração dos Espíritos encarnados.

    "A indiferença dos homens é que os seres humanos ainda têm muito da tribo, encontrando-se ainda encarcerados nos instintos propriamente humanos na luta das posições e das aquisições, dentro de um egoísmo quase feroz, como se guardassem consigo, indefinidamente, as heranças da vida animal". (Xavier, 1977, perguntas 342 a 351)

    7. CONCLUSÃO

    A verdadeira fraternidade é um reflexo do caráter e da personalidade do ser humano. Conectemos o nosso cérebro às ondas mais elevadas do conhecimento superior e teremos como conseqüência ações cada vez mais voltadas para o bem geral.

    8. BIBLIOGRAFIA

    IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo: Paulinas, 1983.

    XAVIER, F. C. O Consolador, pelo Espírito Emmanuel. 7. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1977.

    XAVIER, F. C. Palavras de Vida Eterna, pelo Espírito Emmanuel. 8. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1986.

    XAVIER, F. C. Vinha de Luz, pelo Espírito Emmanuel. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1971.

    São Paulo, abril de 2006

     

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