Empirismo e Espiritismo

Sérgio Biagi Gregório

 SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. O Empirismo em Locke: 4.1. Metafísica Cartesiana; 4.2. Locke Concentra-se no Conhecimento; 4.3. Ideias Inatas. 5. O Empirismo no Espiritismo: 5.1. Método Experimental; 5.2. A Prova da Existência dos Espíritos; 5.3. Um Exemplo. 6. Empirismo e espiritismo: 6.1. Reencarnação; 6.2. Corpo Espiritual; 6.3. Imortalidade da Alma. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.  

1. INTRODUÇÃO  

Nosso objetivo é comparar o empirismo com os pressupostos desenvolvidos por Allan Kardec. O ponto de partida é a filosofia empirista de John Locke. Em seguida, alguns comentários sobre a ciência espírita e os princípios da reencarnação e da imortalidade da alma.  

2. CONCEITO

O adjetivo empírico aplica-se ao que tem origem na experiência (por oposição ao conhecimento racional ou a priori): como tal, sinônimo do a posteriori kantiano. Qualifica igualmente qualquer conhecimento ou pessoa não sistemáticas, que confiam na experiência imediata e até no pragmatismo. O empirismo qualifica qualquer doutrina filosófica que admite que o conhecimento humano deduz tanto seus princípios quanto seus objetos ou conteúdos, da experiência. (Durozoi, 1993)

Corrente filosófica para o qual a experiência é critério ou norma de verdade, considerando-se a palavra “experiência” no significado 2º. Em geral, essa corrente caracteriza-se pelo seguinte: 1º) negação do caráter absoluto da verdade ou, ao menos da verdade acessível ao homem; 2º) reconhecimento de que toda verdade pode e deve ser posta à prova, logo eventualmente modificada, corrigida ou abandonada. Portanto, o empirismo não se opõe à razão a não a cega, a não ser quando a razão pretende estabelecer verdades necessárias, que valham em absoluto, de tal forma que seria inútil ou contraditório submetê-la a controle. (Abbagnano, 1970.)

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS  

Pensar o empirismo e o seu oposto (racionalismo, intelectualismo e intuicionismo) é pensar na forma de obter conhecimento. O problema da obtenção do conhecimento — pelos sentidos ou pelo espírito — não é dos nossos dias; na antiguidade clássica grega ele era motivo de debate entre os filósofos, principalmente Platão e Aristóteles.  

O empirismo diz respeito à experiência. A experiência tem ligação com o sensível. Por isso, a ciência física procura estudar as leis da matéria, utilizando a percepção sensorial. No Espiritismo devemos fazer uso da percepção extra-sensorial. 

O Espiritismo, sendo o delta convergente de todo o estoque de conhecimento, auxilia-nos sobremaneira a ampliar e aprofundar a nossa visão de mundo, física, mental e espiritual.   

Os princípios de reencarnação, perispírito e imortalidade da alma, expostos pela Doutrina Espírita, facilitam a busca e a compreensão desses conhecimentos.   

4. O EMPIRISMO EM LOCKE 

4.1. METAFÍSICA CARTESIANA 

O empirismo inglês inicia-se com Locke. Em seu tempo, a filosofia predominante é a cartesiana, cujo problema metafísico é resolvido pela teoria substancialista de Descartes. Descartes expõe o seu pensamento da seguinte forma: eu descubro o meu “eu” pelo exercício da razão. Ao descobrir o “eu”, vejo a limitação em que me encontro. Contudo, nessa limitação, vislumbro a ideia de Deus, que é infinita. Se o finito chega ao infinito, não foi pelo próprio finito, mas pela influência infinita de Deus. Daí, as três substâncias: a substância pensante (alma), a substância extensa (o corpo) e Deus, a substância infinita criadora.  (Garcia Morente, 1970, p. 178) 

4.2. LOCKE CONCENTRA-SE NO CONHECIMENTO 

John Locke se depara com a triplicidade das substâncias cartesianas. A sua metafísica, porém, concentra-se no conhecimento. Para isso, faz as seguintes perguntas: qual é a essência, qual é a origem, qual é o alcance do conhecimento humano? De acordo com o seu pensamento, o conhecimento é composto de ideias. A partir daí começa a definir o termo ideia, cujo significado nunca houve antes e nem depois dele na filosofia. Para ele, cogitatio significa ideia. Para descartes, porém, cogitatio é pensée, pensamento, e pensamento é todo o fenômeno psíquico em geral. Nesse caso, uma sensação é cogitatio;  uma afirmação ou negação da vontade também o é. Em suma: toda a vivência psíquica é chamada de cogitatio por Descartes. (Garcia Morente, 1970, p. 178)  

4.3. IDEIAS INATAS  

Locke parte da filosofia de Descartes. Descartes falava de três tipos de ideias: adventícias, fictícias e inatas. As ideias adventistas são as que sobrevêm em nós postas pela presença da realidade externa; as ideias fictícias são aquelas que por nós mesmos formamos em nossa alma; as ideias inatas são as que constituem o acervo próprio do espírito, da mente e da alma; são as que estão na alma sem que as tenha posto nenhuma coisa real nem tenham sido formadas por nossa imaginação. Seu ponto de partida foi negar essas ideias inatas. Depois, tentou explicar como as restantes ideias se originam na mente. Supôs, assim, que a alma fosse um papel em branco (tabula rasa) onde tudo o mais deveria ser escrito pelas sensações da experiência. A explicação de Locke funda-se essencialmente no psicologismo. Para tanto, inclui a sensação e a reflexão. Locke entende por sensação o estímulo mínimo para a modificação de algo na mente; por reflexão, o perceber a alma aquilo que nela própria acontece. (Garcia Morente, 1970, p. 179-180) 

Observação: Berkeley e Hume dão prosseguimento às ideias sobre o empirismo. Hume, por exemplo, dizia que toda idéia que não tiver um correlacionado na existência real é falsa.  

5. O EMPIRISMO NO ESPIRITISMO 

5.1. MÉTODO EXPERIMENTAL  

Allan Kardec, no capítulo I (Caráter da Revelação Espírita), de A Gênese, discorre sobre a maneira de o Espiritismo obter conhecimentos. Ele nos diz: “Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege: depois, deduz-lhes as consequências e busca as aplicações úteis”. É o procedimento das ciências naturais. A diferença: em vez de utilizar a percepção sensorial, usa a percepção extra-sensorial. (Kardec, 1975, cap. I, item 14)   

5.2. A PROVA DA EXISTÊNCIA DOS ESPÍRITOS  

O Espiritismo não teve uma teoria preconcebida sobre a existência e comunicação dos espíritos. Foi pela observação, análise e estudo rigoroso dos fatos que se construiu o edifício espírita. Veja o fenômeno das mesas falantes: Qual foi a atitude de Allan Kardec? Perguntou: como é que um objeto, que não tem cérebro, fala? Onde está a causa da fala? É a aplicação da dúvida cartesiana. Somente depois de muitas observações a esse respeito, pode elaborar uma teoria sobre as mesas girantes. (Kardec, 1975, cap. I, item 14)   

5.3. UM EXEMPLO 

Passa-se no mundo dos Espíritos um fato singular: o de haver Espíritos que se não consideram mortos. Os Espíritos superiores, que conhecem esse fato, não vieram dizer antecipadamente: “Há espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservam seus gostos, costumes e instintos”. Provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria para que os observássemos. Estudando as diversas manifestações desses Espíritos, pode-se deduzir uma regra. (Kardec, 1975, cap. I, item 15)  

6. EMPIRISMO E ESPIRITISMO 

6.1. REENCARNAÇÃO  

A lei de reencarnação, embora não seja criação espírita, é totalmente aceita por Allan Kardec. Ela mostra-nos que o Espírito, eventualmente num corpo carnal, já teve outras experiências, outras vivências. Daí ser possível fazer ilações, que vão além daquelas feitas pelo empirismo, que só aceita o aqui e o agora da experiência. Com a reencarnação penetramos em outras memórias, as memórias espirituais, o que nos dá ensejo de enfatizar a existência de ideias inatas, negadas pelo empirismo.  

6.2. CORPO ESPIRITUAL  

No conhecimento do perispírito está a solução para inúmeros problemas de nossa vida. Por quê? Porque o perispírito é o elo de ligação entre o corpo físico e o Espírito propriamente dito. Ainda mais: encarnado e desencarnado, ele sempre acompanha o Espírito. O problema da obtenção do conhecimento — pelos sentidos ou pelo espírito — tem aqui o seu esclarecimento: o Espírito é um todo, pois engloba o espírito propriamente dito, o perispírito e o corpo físico.  

6.3. IMORTALIDADE DA ALMA 

O Espírito, criado simples e ignorante, teve um começo, mas não terá fim. Assim, a expectativa da vida futura se resume em nos prepararmos bem, no sentido de atingirmos a perfeição requerida. A certeza de que há vida além da vida faz-nos ampliar o conceito de um determinado fato (ele é presente, mas tem conexões com as vidas passadas e as futuras). Presentemente, estamos passando por uma experiência. Ela não está isolada, porque é reflexo de uma ação passada, englobando as existências passadas. Pode ser também um projétil para o futuro, e influenciando nossas futuras encarnações.  

7. CONCLUSÃO  

O Espiritismo, sendo a síntese do processo do conhecimento filosófico, não só elucida o problema da origem das ideias, como também nos fornece subsídios para entendermos a mecanismo das ideias inatas, negado pelo empirismo.  

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975. 

São Paulo, agosto de 2010.

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