Cartesianismo e Espiritismo

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Contexto Histórico. 3. Cartesianismo: 3.1. René Descartes; 3.2. Sonho Premonitório; 3.3. O Discurso do Método: 3.3.1. Título Original; 3.3.2. A Dúvida Metódica; 3.3.3. As Quatro Célebres Regras; 3.3.4. Intuição e Dedução. 4. Problemas Tratados por Descartes. 5. Problemas Levantados Por Descartes À Luz do Espiritismo. 6. Influência de Descartes Em Kardec. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.


1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é mostrar o grau de influência que o racionalismo de Descartes exerceu sobre os princípios básicos codificados por Allan Kardec. Para a compreensão do tema, analisaremos: contexto histórico do método, visão geral do Cartesianismo, os problemas tratados por Descartes e os problemas tratados por Descartes à luz do Espiritismo.

2. CONTEXTO HISTÓRICO

Na Grécia antiga, berço da civilização ocidental, o pensamento dos grandes filósofos estava assentado no método dedutivo, em que o conhecimento era construído partindo-se do geral para o particular. "Para Aristóteles, o método da filosofia é a lógica, ou seja, a aplicação das leis do pensamento racional que nos permite passar de uma posição a outra posição por meio das ligações que os conceitos mais gerais tem com outros menos gerais até chegar ao particular". (Garcia Morente, 1970, p.39)

Na Idade Média, período histórico em que predominava o movimento filosófico e religioso denominado de Escolástica, o método é ainda dedutivo. O conhecimento era construído através dos vários silogismos aristotélicos, partindo-se do geral para o particular.

Na Idade Moderna, o método passa a ser indutivo, sem contudo desprezar de todo o método dedutivo. Francis Bacon (1561-1626) ao apresentar o seu Novum Organum, em que enfatiza o empirismo nas ciências, isto é, o conhecimento passa a ser construído partindo-se do particular para o geral. René Descartes insere-se nesse novo contexto da ciência.

3. CARTESIANISMO

3.1. RENÉ DESCARTES

René Descartes (1596-1650) nasceu em La Haye, França, pertencendo a uma família de prósperos burgueses. Estudou no colégio jesuíta de La Fléche, na época um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino europeu. Foi soldado, esteve sob as ordens de Maurício de Nassau. Participou de várias campanhas militares. As obras de Descartes são de considerável extensão. As mais importantes são: Regras para a Direção do Espírito (1628), O Discurso do Método (1637) e Meditações Filosóficas (1641). (Jerphagnon, 1982)

3.2. SONHO PREMONITÓRIO

A dez de novembro de 1616, o jovem Descartes teve um sonho premonitório. Sonhou que o Espírito da Verdade o visitara e, reverente, tal como é natural à Entidade de sua estirpe, comunicou-lhe que lhe competia a missão de edificar uma "Ciência Admirável" , cujas coordenadas lhe trouxe em outra visita onírica. Houve, ainda, uma terceira, concluindo o esclarecimento devido. Ao acordar, preocupado com a responsabilidade de tão grande missão, pediu a Deus que o amparasse a fim de que pudesse fielmente cumprir a grande tarefa, tão acima de suas parcas forças. (São Marcos, 1993, p. 76)

3.3. O DISCURSO DO MÉTODO

3.3.1. TÍTULO ORIGINAL

O Discurso do Método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências, mais a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria que são os ensaios deste método. (volume de 527 páginas)

3.3.2. A DÚVIDA METÓDICA

Descartes analisa o conhecimento vigente e conclui que nada se lhe oferece, de modo indubitável, sobre o que possa fundamentar o seu trabalho. Tem que buscar alguma coisa fora da tradição, uma idéia, uma única que seja, mas que resista a todas as dúvidas. Toma como paradigma a geometria que partindo de algumas proposições certas em si mesmas, descobre outras verdades e esgota todas as possibilidades; também a filosofia deve, de igual modo, descobrir e demonstrar as suas verdades, dedutivamente, partindo de algumas proposições certas, indubitáveis. O edifício filosófico que lhe compete estruturar a de assentar, sobre uma verdade contra a qual nenhuma dúvida, a mínima que seja, possa pairar (São Marcos, 1993, p. 77).

3.3.3. AS QUATRO CÉLEBRES REGRAS

1.ª) Só admitir como verdadeiro o que parece evidente, evitar a precipitação assim como a prevenção;

2.ª) Dividir o problema em tantas partes quantas as possíveis (é o que se chama regra de análise);

3.ª) Recompor a totalidade subindo como que por degraus (regra da síntese);

4.ª) Rever o todo para se Ter a certeza de que não se esqueceu de nada e que, portanto, não há erro. (Jerphagnon, 1982)

3.3.4. INTUIÇÃO E DEDUÇÃO

Dois atos fundamentais nos conduzem à verdade: a intuição e a dedução.

A intuição é o conceito, fácil e distinto, de um espírito puro e atento, de que nenhuma dúvida poderá pesar sobre o que nós compreendemos.

A dedução é apenas uma série de intuições - e, como se pode sempre esquecer um momento da série, será necessário pela imaginação e pela memória habituarmo-nos a repassar cada vez mais rapidamente no nosso espírito os termos da dedução, até que leve a uma "quase intuição" (Jerphagnon, 1982).

4. PROBLEMAS TRATADOS POR DESCARTES

1 - PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS: descubro em mim próprio, ser finito, a idéia do infinito. Ora, como não posso ser autor dessa idéia, é necessário que o autor seja Deus e que, portanto, ele exista. Daí surge o famoso cogito ergo sum, ou seja, "penso, logo existo".

2 - RES COGITANS E RES EXTENSA: enquanto a razão se tornava alma, coisa pensante (res cogitans), o espaço, por seu turno, tornava-se realidade material, coisa extensa (res extensa). Esta é a dualidade cartesiana.

3 - UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: prova que a alma é distinta do corpo. Para Descartes, a alma existe e isso deveria ser o suficiente. (Jerphagnon, 1982)

5. PROBLEMAS LEVANTADOS POR DESCARTES À LUZ DO ESPIRITISMO

1 - PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS: os Espíritos informam a Allan Kardec que Deus é inteligência suprema causa primária de todas as coisas. Para o Espiritismo, não há efeito sem causa. Tudo enquadra-se na lei natural. Ao "Penso, logo existo" de Descartes, J. H. Pires escreve "sinto Deus em mim, logo existo". Quer dizer, Deus não é percebido pelo pensamento, mas pelo sentimento.

2 - RES COGITANS E RES EXTENSA: para Descartes, o Universo é constituído de dois elementos fundamentais: res cogitans e res extensa. ssas duas substâncias cartesianas, em termos espíritas, são a inteligência e a matéria que, juntamente com Deus, formam a trindade universal.

3 - UNIÃO DA ALMA E DO CORPO: partindo-se de que alma e corpo são distintos Allan Kardec, com o auxílio dos Espíritos, informa-nos que o perispírito - matéria quintessenciada - é o elemento de ligação entre a alma e o corpo físico.

6. INFLUÊNCIA DE DESCARTES EM KARDEC

O método cartesiano pode ser vislumbrado nas entrelinhas da Doutrina Espírita. Allan Kardec, em várias passagens da Codificação, fala-nos que devemos colocar tudo sobre o crivo da razão; que é preferível rejeitar nove verdades a aceitar uma única verdade como falsidade; que a fé inabalável somente é aquela que consegue enfrentar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.

7. CONCLUSÃO

Esse estudo do Cartesianismo serve não só para nos chamar a atenção sobre o tema, como também o de sugerir o desenvolvimento e aprofundamento do mesmo. Se assim o fizermos, vamos encontrando o verdadeiro encadeamento das idéias e uma explicação racional da síntese filosófica elaborada por Allan Kardec.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed., São Paulo, Mestre Jou, 1970.
JERPHAGNON, L. Dicionário das Grandes Filosofias. Lisboa, Edições 70, 1982.
PIRES, J. H. O Espírito e o Tempo: Introdução Antropológica ao Espiritismo. 3. ed., São Paulo, EDICEL, 1979.
SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.
SÃO MARCOS, M. P. Noções de História da Filosofia. São Paulo, FEESP, 1993.

São Paulo, janeiro de 1994.

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