Bem-Aventurados os Misericordiosos

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico sobre o Perdão. 3. Os Inimigos: 3.1. O Perdão de Deus; 3.2. Reconciliar-se com os Adversários; 3.3. Não Julgueis para não Serdes Julgados. 4. O Problema da Ofensa. 5. Esquecimento da Ofensa. 6. Ação e Reação. 7. As Leis da Vitória. 8. Conclusão. 9. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo, baseado no capítulo X de O Evangelho Segundo o Espiritismo, é analisar o perdão e suas conseqüências para a nossa vida de relação em sociedade.

2. CONCEITO

Misericórdia - do lat. misericordia. 1. Compaixão suscitada pela miséria alheia. 2. Indulgência, graça, perdão.

Misericordioso - Aquele que perdoa as ofensas que lhe fazem. (Dicionário Aurélio)

Perdoar - do lat. med. perdonare significa "desculpar", "absolver", "evitar". É o estado de ânimo, em que se encontra alguém, agravado por outrem, seu agressor, e sente-se desagravado. O pecado, na Religião, é um agravo a Deus, e o perdão consiste em não considerar-se Deus agravado; ou seja, desagravado. (Santos, 1965)

Ofensa - do lat. offensa significa injúria, agravo, ultraje, afronta, lesão, dano. Causar mal físico a; ferir suscetibilidades.

3. HISTÓRICO SOBRE O PERDÃO

Na Antigüidade clássica grega pouco se escreveu acerca do perdão. Entende-se que esses filósofos estavam mais preocupados com a questão do conhecimento racional e da prática de conduta. Contudo, nas entrelinhas das filosofias de Sócrates e de Platão, considerados os precursores do Cristianismo e das idéias espíritas, encontramos muitas acepções sobre as virtudes, a questão do bem e do mal, a justiça etc. "Não é preciso jamais retribuir injustiça por injustiça, nem fazer o mal a ninguém, qualquer mal que se nos tenha feito. Poucas pessoas, entretanto, admitirão este princípio, e as pessoas que estão divididas não devem senão se desprezar umas às outras". "Não está aí o princípio da caridade, que nos ensina a não retribuir o mal com o mal, e de perdoar aos inimigos?" (Kardec, 1984, p. 29)

É lugar comum no AT que Iahweh é perdão, entendido em termos antropomórficos. As orações para obter o perdão são comuns, embora desprovidas de razão explícita. O caráter misericordioso de Iahweh é suficiente para conceder o perdão. Há dizeres referentes à confissão do perdão, à conversão do pecador e ao pedido de perdão. (Mackenzie, 1984)

João Batista pregava o Batismo do arrependimento para a remissão dos pecados. Jesus mesmo reivindicava e exercia o poder de perdoar pecados. O perdão da pecadora. O Cristão conhece a salvação através do perdão dos pecados. A diferença entre o VT e NT é que neste último o perdão vem através do Cristo. Todos os pecados vos serão perdoados menos o cometido contra o Espírito Santo.

4. OS INIMIGOS

4.1. O PERDÃO DE DEUS

"Se vós perdoardes aos homens as faltas que eles fazem contra vós, vosso Pai celestial vos perdoará também vossos pecados, mas se vós não perdoardes aos homens quando eles vos ofendam, vosso Pai, também, não vos perdoará os pecados". (Mateus, 6, 14 e 15)

Deus perdoa? Como?

Deus não derroga as suas leis. "A oportunidade de resgatar a culpa já constitui em si mesma, um ato de misericórdia divina, e, daí o considerarmos o trabalho e o esforço próprio como a luz maravilhosa da vida". (Xavier, 1977, pergunta 336)

É por isso que Jesus recomenda-nos perdoar não sete mas setenta vezes sete vezes. E recomenda-nos, porque sabe que vivemos num mundo de provas e expiações, sujeitos aos mesmos erros cometidos pelos outros. Perdoar os outros é perdoar a nós mesmos.

4.2. RECONCILIAR-SE COM OS ADVERSÁRIOS

Reconciliai-vos, o mais depressa, com vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, a fim de que vosso adversário não vos entregue ao juiz, e que o juiz não vos entregue ao ministro da justiça, e que não sejais aprisionado. Eu vos digo, em verdade, que não saireis de lá, enquanto não houverdes pago até o último ceitil. (Mateus, 5, 25 e 26)

A orientação de nos reconciliarmos com o adversário enquanto estivermos a caminho é porque no perdão, além do efeito moral, há também um efeito material, ou seja, mesmo depois da sua morte, o Espírito continua vivo. Caso tenha partido com o coração cheio de mágoa contra nós, as suas vibrações de ódio atingir-nos-ão com mais facilidade, devido à sua invisibilidade.

4.3. NÃO JULGUEIS PARA NÃO SERDES JULGADOS

"Não julgueis para não serdes; porque vós sereis julgados segundo tiverdes julgado os outros; e se servirá para convosco da mesma medida da qual vos servistes para com eles". (Mateus, 7, 1 e 2)

Nesta passagem evangélica, Jesus não está nos exortando à passividade enquanto o mal cresce; recomenda-nos o dever da indulgência, porque não há ninguém que dela não tenha necessidade para si mesmo. A mulher pega em adultério é um nobre exemplo: quando todos queriam apedrejá-la, Jesus diz "Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra". O Evangelista João conta que depois de ouvirem esta admoestação as pessoas foram se retirando uma após a outra, as velhas saindo primeiro; e assim Jesus permaneceu só com a mulher e disse-lhe: Mulher, onde estão os vossos acusadores? Ninguém vos condenou? Ela lhe disse: Não, Senhor. Jesus lhe respondeu: Eu também não vos condenarei. Ide, e, no futuro, não pequeis mais. (João, 8, 3 a 11)

5. O PROBLEMA DA OFENSA

A ofensa é algo que nos machuca. Diz-se, inclusive, que a ofensa de um amigo fere mais do que a do inimigo. Contudo, ela depende muito mais de nosso estado de espírito do que dela objetivamente. Ghandi, no fim de sua vida, pôde responder à pergunta se perdoou todas as ofensas recebidas com a declaração sincera: "Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me ofendeu". Ego é ofensor e ofendido. Mas quando o ego humano é substituído pelo Eu divino, não pode mais haver ofensor nem ofendido. (Rohden, 1982, p. 160) A Ofensa é objetiva, considerar-se ofendido ou não subjetivo. Ghandi simplesmente não considerou a ofensa como ofensa.

Aquele que tiver suportado o maior dos ultrajes, além das recompensas celestes da outra vida, terá a paz de coração nesta e uma alegria incompreensível por haver duas vezes respeitado a obra de Deus.

6. ESQUECIMENTO DA OFENSA

Há esquecimento da ofensa? O que significa esquecer o ultraje? Em nosso modo de entender, significa não lhe dar guarida em nosso pensamento. O pensamento é como uma bola de neve. Quanto mais pensamos mais ficamos enovelados em nosso modo de ser. É uma fixação mental que precisa ser extinta com o auxílio da vigilância e da prece.

As explicações do Mestre Jesus no livro Boa Nova complementam as nossas idéias. Ele diz: "Não será vaidade exigirmos que toda a gente faça de nossa personalidade elevado conceito? ... Pedro, o perdão não exclui a necessidade de vigilância, como o amor não prescinde da verdade". (Xavier, 1977, p. 61 e 62)

7. AÇÃO E REAÇÃO

Nosso destino é a perfeição; nossa caminhada é a evolução em sentido positivo. Determinismo e Livre- Arbítrio são as faces do mesmo plano que nos sustenta a caminhada. o Livre-Arbítrio consiste na liberdade que temos de poder dar impulso às nossas ações contra ou a favor das leis divinas.

Não nos esqueçamos de que a lei do progresso é inexorável. O que fizermos de mal tem que ser refeito. Quem sabe se a pessoa que nos ofende não será aquela mesma que ensinamos a atirar uma pedra? Se praticarmos atos bons, o resultado será atos bons; se praticarmos atos maus, o resultado será os atos maus, mas com o condicionante de que teremos de recapitular a ação, quer nesta ou em outras encarnações, para transformá-la em um ato bom.

8. AS LEIS DA VITÓRIA

"Quando Jesus nos pede cultivar a misericórdia, o perdão das ofensas, o não julgar, o focalizar as virtudes em nosso semelhante, não nos incita à passividade diante do mal contra o benefício coletivo. Inclusive dá demonstração de energia benéfica, quando exprobra o comercialismo que humilha o tempo, quando profliga os erros de sua época". (Curti, 1982, p. 64)

Como a ofensa está ligada ao ofensor e ao ofendido, a vitória sobre o perdão implica num conhecimento de nós mesmos. Tomando consciência de nossos defeitos e de nossas potencialidades, conseguiremos aquilatar o quanto somos imunes em ofender e em sermos ofendidos. Tornando um hábito essa reflexão, aguçaremos a nossa percepção e evitaremos muitos desagravos na sociedade.

9. CONCLUSÃO

Estamos sempre querendo vencer o mundo, ou seja, sobressair nos afazeres materiais. É ser o primeiro em determinado esporte, o melhor em determinada arte. Mas como precisar a vitória sobre nós, a capacidade de perdoarmos àqueles que foram colocados ao nosso derredor para serem motivos de nossa melhoria interior?

Humilhemo-nos, dobremo-nos, mortifiquemo-nos. Renunciarmo-nos à nossa própria personalidade, é culparmo-nos antes de culparmos o nosso próximo, é suportarmos as injunções do destino, sem reclamações e sem outro móvel que não seja a obediência aos ditames do Deus, criador do mundo e das coisas que nos cercam.

10. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s/d/p.

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.

MACKENZIE, J. L. (S. J.) Dicionário Bíblico. São Paulo, Edições Paulinas, 1984.

ROHDEN, H. Mahatma Gandhi - Idéias e Ideais de um Político Místico. 6. Ed., São Paulo, Alvorada, 1982

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

XAVIER, F. C. Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos. 11. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.

XAVIER, F. C. O Consolador, pelo Espírito Emmanuel. 7. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.

Março de 2000

Copyright © 2010 por Sérgio Biagi Gregório
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