Comunicação Genuina

Sérgio Biagi Gregório

O princípio básico, inerente à comunicação genuína, é a procura do outro, sem quaisquer tendências que visem ao interesse próprio. Quando o procuramos para proveito próprio, como, por exemplo, para pedir favores escusos, a comunicação deixa de ser genuína, pois foi introduzido um viés no relacionamento interpessoal. Pergunta-se: como estamos nos relacionando com o nosso próximo? Estamos sendo autênticos? Estamos procurando tirar proveito dele? Estamos o usando para o nosso benefício pessoal? Façamos uma pequena reflexão em torno do tema.

O mito, no seu sentido pejorativo, é um dos entraves à boa comunicação. Como isso se dá? Em muitos mitos, há a criação de heróis, de salvadores da pátria. Consciente ou inconscientemente, transferimos a esses heróis a realização de nossos desejos, de nossas aspirações. Damos-lhes uma demasiada importância, fora da realidade. Observe o mito do "cowboy" americano. Ele chega não se sabe de onde, com a finalidade precípua de debelar o mal, de fazer justiça. O casamento não está em seus planos, pois, mesmo com o assédio das mulheres, ele permanece só. Depois de ter estabelecido a paz e a harmonia, despede-se e dirige-se a outra região, para dar continuidade ao seu trabalho.

Vejamos, também, o mito do Narciso. Conta-se que Narciso se debruça sobre um poço e se apaixona pela sua imagem que vê espelhada na água. Nesse mito, o que muitas vezes se esquece, é que Narciso realmente acredita que ama uma outra pessoa. Esse é o ponto essencial do mito; se não prestarmos atenção nele, perderemos a verdadeira mensagem. O que é terrível, é que Narciso não sabe que a imagem no poço é a sua própria imagem e não a de uma outra pessoa. Ao tentar abraçar essa outra pessoa – a sua própria imagem refletida no poço – a fim de sentir o outro, Narciso é amaldiçoado pelos deuses e o objeto de seu amor desaparece.

O celibato é uma forma de comunicação, geralmente caracterizada por mal-entendidos, em virtude dos estereótipos lingüísticos ao seu derredor. Pensa-se, de forma geral, que o celibatário é contra o casamento. Esquece-se de que a palavra celibato, cuja origem alemã é ehelos, significa "não-casamento", estado de não ser casado. Muitos espíritos escolhem esta difícil prova, não para o prazer da liberdade, mas para se dedicarem mais inteiramente ao seu próximo. À semelhança de Jesus, essas pessoas estão sempre repletas do amor ágape, do amor transcendental.

Para ilustrar o tema, lembremo-nos das palavras magnanimidade e magnificência, tão bem explicadas por Santo Tomás de Aquino. A magnanimidade é a "grandeza de alma", é o indivíduo que se projeta no tempo e no espaço para adquirir os conhecimentos superiores do espírito. A magnificência é "grandeza no fazer", é a pessoa que sai de si mesmo para auxiliar o seu próximo, através da caridade material e espiritual.

Sair de si implica risco. Saibamos ir ao encontro das necessidades alheias sem, contudo, esforçarmo-nos demasiadamente. Lembremo-nos do adágio dos antigos: "A corrupção do melhor é o pior".

Fonte de Consulta

CURRAN, Charles A. A Dinâmica Psicológica da Vida Religiosa. Tradução de Margarida M. C. Oliva. São Paulo: Loyola, 1978.

São Paulo, 19/9/2007

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