Sócrates

"A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida."
citado por Platão, em 
Apologia a Sócrates

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Dados Pessoais. 3. Considerações Iniciais. 4. Filosofia: 4.1. Missão Sagrada; 4.2. Purificação da Alma; 4.3. Sócrates por Platão. 5. O Método Socrático: 5.1. Ironia e Maiêutica; 5.2. Perguntas e Respostas; 5.3. A Descoberta do Conceito. 6. Conhecimento de Si Mesmo: 6.1. Gnothi Seauton; 6.2. Oráculo de Delfos; 6.3. Pensar por Si Mesmo. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.  

1. INTRODUÇÃO 

Quem foi Sócrates? Em que época viveu? O que nos deixou? Qual a sua importância para a história da filosofia?  

2. DADOS PESSOAIS 

Sócrates nasceu em Atenas (470/469-399 a.C.) Tudo o que sabemos de Sócrates veio pelos testemunhos de Platão, Xenefonte e Aristóteles. A sua mãe, Fenarete, era parteira; o seu pai, Sofronisco, era escultor. Desposou Xantipa. Tomou parte em três campanhas militares. Tinha muita paciência, simplicidade e domínio de si próprio. Ensinava na Ágora (praça pública). A sua filosofia enfatizava o “conhece-te a ti próprio”, apoiado pela maiêutica. 

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS  

Os primeiros filósofos antes de Sócrates buscavam, nos elementos externos do ser, as explicações racionais do mundo. Para Tales de Mileto, a substância primordial era a água; para Anaxímenes, o ar; para Pitágoras, o número; para Demócrito, o átomo. Sócrates, porém, não via a filosofia como uma simples especulação filosófica; para ele, a filosofia não pode estar desligada da própria vida, que é pessoal e social. Essa atitude está condensada na máxima: "Conhece-te a ti mesmo", que é autoconsciência ou uma volta reflexiva sobre si mesmo.  

4. FILOSOFIA 

4.1. MISSÃO SAGRADA 

A filosofia não é para Sócrates uma simples especulação filosófica. Para ele, ela deve ser tratada como um sacerdócio, uma missão sagrada que implicava, se necessário, o sacrifício da própria vida (que exemplificou ao beber cicuta). A filosofia não pode estar desligada da própria vida, entendendo-se que a vida é algo não apenas pessoal, mas tem uma dimensão pública - política, por ser da pólis - da qual não se pode prescindir. 

Sócrates viveu entre os sofistas, mas não se considerava um deles. Ao contrário, opunha-se a eles. Os sofistas eram os profissionais da palavra, que vendiam os seus ensinamentos (Sócrates fazia-o por devoção). Os sofistas surgiram num momento em que a democracia grega se desenvolvia a todo o vapor. Naquela época não havia o advogado para defender os interesses dos cidadãos. Cada um tinha que se representar perante os juízes. Os sofistas preparavam essas pessoas para fazerem a sua própria defesa. Para tal, ensinavam e praticavam a argumentação, a controvérsia e a persuasão. As suas aulas eram um verdadeiro treino de retórica. 

4.2. PURIFICAÇÃO DA ALMA 

As investigações de Sócrates tinham por objeto a purificação da alma. Dizia que o verdadeiro valor da vida está na purificação de si mesmo, pelo “conhecimento de si mesmo” e pela prática da virtude. Conhecer a própria ignorância é o melhor meio para permitir a purificação do conhecimento. 

Enfatizava que todas as relações da vida humana devem ser examinadas através de uma meditação profunda, não aceitando, instintivamente, os costumes e acontecimentos, mas raciocinando sobre eles. O seu racionalismo fundamenta a conduta na reflexão, por meio de conceitos claros, sobre a própria evidência racional, ratio

4.3. SÓCRATES POR PLATÃO 

Sócrates, à semelhança de Jesus, não nos deixou nada escrito. Sua filosofia foi exposta por Platão. No livro Apologia de Sócrates, Platão enfatiza o verdadeiro caráter e integridade de Sócrates que, mesmo tendo oportunidade de fugir da prisão, não o fez, para dar cumprimento aos seus princípios. Eis um trecho desse livro:

“... se sentirdes que me defendo com os mesmos raciocínios com os quais costumo falar nas feiras, ou nos lugares onde muitos de vós me tendes ouvido, não vos espanteis por isso, nem provoqueis clamor, porquanto, é esta a primeira vez que me apresento diante de um tribunal, e com mais de setenta anos de idade! Por isso, sou quase estranho ao modo de falar daqui. Se eu fosse realmente um estrangeiro, sem dúvida, me perdoaríeis, se eu falasse na língua e da maneira pelas quais tivesse sido educado; assim também agora vos peço uma coisa que me parece justa: permiti-me, em primeiro lugar, o meu modo de falar – e poderá ser pior, ou mesmo melhor – depois, considerai o seguinte e só prestai atenção a isto: se o que eu digo é justo ou não. Essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador: dizer a verdade.”  

“Mas é chegada a hora de partir: eu para a morte e vós para a vida. Quem de nós se encontra para o melhor destino, todos nós ignoramos, exceto o deus”. Somente Deus conhece a verdade.

5. O MÉTODO SOCRÁTICO 

O fim do método socrático é a elaboração de conceitos, e o caminho que conduz a esse fim é o da indução (não no sentido da ciência moderna, que se eleva dos casos particulares a um resultado geral), mas somente quando é definido, quando permanece esgotado, numa forma verbal, é que o conceito está determinado universalmente. Assim, as características da investigação socrática são: indução, conceituação, definição. Por esses meios, desejava atingir o conhecimento moral de seus amigos. Por isso, para Xenofonte, foi Sócrates um reformador moral

5.1. IRONIA E MAIÊUTICA 

Trata-se de encontrar a verdade no diálogo, mas ela não pode ser simplesmente o resultado de um acordo entre os interlocutores, uma vez que poderiam chegar a um acordo injusto. Se não se encontra a verdade buscada, pelo menos as opiniões sem fundamento terão ficado para trás. Mais até: não existe nenhuma possibilidade de chegarmos à verdade sem nos libertarmos daquilo que acreditamos saber, mas que na realidade não sabíamos e sem reconhecer dessa forma nossa ignorância. 

Para Sócrates, a ignorância constitui condição prévia para o saber autêntico. Só quem reconhece a sua ignorância está capacitado ao aprendizado. Por isso, dizia: "sei que nada sei". Para chegar a esse estado prévio do não-saber, Sócrates lança mão de seu método, que é o de perguntar. As perguntas objetivavam descobrir o conceito que se ocultava na superficialidade do conhecimento. Primeiramente, aplicava a ironia, que é a forma negativa do diálogo, em que procurava confundir o interlocutor sobre um conhecimento que acreditava possuir; depois, aplicava a maiêutica, a forma positiva do diálogo que, baseado no ofício de parteira de sua mãe, procurava dar à luz um novo saber. Ele não ensinava, mas criava condições para que o conhecimento brotasse do ouvinte. 

5.2. PERGUNTAS E RESPOSTAS 

O método socrático é baseado em perguntas e respostas. Esse método não era original, pois Zenão de Eléia já o utilizava. O que é novo é o enfoque de Sócrates: introduziu a ironia e a maiêutica.  

O método dialético de Sócrates era um sistema simples de questionamento que trazia à luz pressuposições, muitas vezes falsas que servem de base para um suposto conhecimento. Eis um exemplo: 

P: Você acha que os deuses sabem tudo?

R: Sim, porque eles são deuses.

P: Alguns deuses discordam de outros?

R: Sim, claro que sim. Eles estão sempre brigando.

P: Então, os deuses discordam sobre o que é verdadeiro e certo?

R: Imagino que sim.

P: Então, alguns deuses podem às vezes estar errados?

R: Pode ser.

Então os deuses não podem saber tudo.  

5.3. A DESCOBERTA DO CONCEITO 

O pressuposto do método socrático é o de que é possível conhecer a verdade por meio da razão. A superação do ceticismo dos sofistas é factível porque o homem é capaz de pensar conceitualmente: da multiplicidade, sabe colher a unidade e diante de duas alternativas chega a conhecer qual é a verdadeira. Sócrates entrou para a história como o descobridor do conceito, no sentido de que esse filósofo é o primeiro a se dar conta de que só por meio desse pensamento conceptual é possível atingir a verdade. O objetivo é encontrar a definição do conceito investigado: uma definição válida universalmente.  

O interesse de Sócrates pela definição dos conceitos é prático: o comportamento só pode se fundamentar corretamente a partir do conhecimento. Só seremos virtuosos se sabemos em que consiste a virtude. O conhecimento proporciona a virtude, porque "ninguém faz o mal conscientemente". Aquele que age mal acredita que está fazendo o bem, e ignora em que consiste o bem. A postura de Sócrates é uma postura intelectualista: identifica virtude e conhecimento. Se para ser virtuoso é preciso conhecer a virtude, todas as virtudes podem ser reduzidas na realidade a uma única: a do conhecimento. Ao mesmo tempo, ser virtuoso equivale a ser feliz, que é o bem ao qual, segundo os gregos, todos os seres humanos aspiram.  

6. CONHECIMENTO DE SI MESMO 

6.1. GNOTHI SEAUTON 

O gnothi seauton envolve em primeiro lugar uma tragédia. A tragédia começa com o enigma da esfinge apresentada ao rei Édipo, que pergunta: "Quem pela manhã anda sobre quatro pernas, à tarde sobre duas e à noite sobre três?". (A resposta: o bebê engatinha de quatro, o adulto fica de pé, e o velho anda com a bengala) 

6.2. ORÁCULO DE DELFOS 

Sócrates não é o autor da frase "conhece-te a ti mesmo". Na tradição mítica, essa sentença foi proferida pelo deus Apolo, e estava gravada no frontispício do templo de Delfos. Foi somente depois da sua visita a Cherofonte, o oráculo de Delfos, que passou a refletir sobre o "conhece-te a ti mesmo". Este dístico inspira-lhe dois diálogos, narrados em Platão (Alcibíades, l28d-l29) e em Xenofontes (Memoráveis IV, II, 26), onde retrata a importância do autoconhecimento.

O oráculo de Delfos não ensinava filosofia. Sócrates interpretou essa ordem com um programa e um método, ou seja, propunha a seus sucessores trabalhar para se conhecer, a fim de se tornarem melhores. Ele, porém, não se iludia sobre as dificuldades dessa tarefa. Ele as experimentou e morreu por isso. Nada tinha de misterioso. Mas iria voltar a ser no momento em que os pensadores cristãos o adotassem e o interpretassem por sua vez. 

6.3. PENSAR POR SI MESMO 

A filosofia é diálogo, é um questionamento comum a partir da linguagem no qual nenhum dos interlocutores possui a verdade, mas deve tratar de buscá-la. Cada homem possui dentro de si uma parte da verdade, mas deve descobri-la com a ajuda dos outros. Sócrates foi o primeiro a pôr a busca racional da verdade no centro de cada vida. Talvez o ser humano jamais possa encontrar a verdade - de fato, muitos diálogos socráticos, tais como Platão testemunhou, acabavam sem conclusão definitiva -, mas não pode renunciar a ela. É isto o que constitui a verdadeira dimensão humana: pensar por si mesmo - ainda que seja em comum -, libertar-se das opiniões preconcebidas, exercer constantemente a crítica em relação ao que parece evidente, a opinião da maioria, o que o costume ou a tradição determina.  

7. CONCLUSÃO 

O “conhece-te a ti mesmo” é um dístico pronunciado há mais de 2.500 anos e ainda continua atual. Perscrutemos o seu verdadeiro sentido e metamos mão à obra para um maior aprofundamento sobre nós mesmos.  

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA  

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.

TEMÁTICA BARSA (Filosofia). Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.

São Paulo, maio de 2013.

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