Gnosticismo

Sérgio Biagi Gregório

 SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Herança Cultural: 4.1. Cristianismo e Concepção Grega do Mundo; 4.2. Neoplatonismo; 4.3. Gnosticismo. 5. Demiurgo, Autoconhecimento e Contribuição de Dois Gnósticos: 5.1. Demiurgo; 5.2. Autoconhecimento; 5.3. Contribuição de Basílides e Valentino. 6. Tradição Oculta e a Gnose como Mito: 6.1. Encontro da Alma Oriental e da Alma Ocidental; 6.2. O Aparecimento dessas Formas no Ocidente; 6.3. Mito Gnóstico. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO 

O gnosticismo, uma corrente particular do pensamento, ainda não é bem conhecido na época presente. Pretendemos, nesse pequeno estudo, rastrear algumas informações sobre este termo, a fim de clarear a sua concepção.  

2. CONCEITO 

Gnosticismo. Deriva de grego gnosis, e significa “conhecimento”, não um conhecimento conceitual, mas intuitivo, reservado somente a alguns iniciados. É uma corrente de pensamento que surgiu a partir do século II de nossa era, na qual se combinam elementos cristãos e pagãos. (Temática Barsa) 

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS  

O gnosticismo está centrado na busca da perfeição através da gnose.

O propósito é fazer o homem tomar consciência de que ele é um deus para que este conhecimento o leve à salvação.

A ênfase no conhecimento de si mesmo toma diferentes formulações de acordo com o conceito individual de cada gnóstico.

Eis mais algumas frases:

“O começo da perfeição é a gnose do homem, mas seu fim é a gnose de Deus”.

“Feliz aquele que conhece a si mesmo”

“Um homem que se conhece a si mesmo não tem igual no mundo”

“Não é o banho só que nos liberta, mas também a gnose: quem éramos, em que nos transformamos, onde estávamos, aonde fomos jogados, em busca de que ideal nós corremos, de que somos remidos, o que é a geração, o que é a regeneração”. (Fries, 1970) 

4. HERANÇA CULTURAL  

4.1. CRISTIANISMO E CONCEPÇÃO GREGA DO MUNDO 

No começo da era cristã, havia dois tipos de tradições:  

a) tradição grega, baseada no deus da razão, cuja intenção era a de compreender a realidade, de forma natural, dentro dos limites da razão. Pressupunham que o tempo era circular.

b) tradição cristã, em que a religião procurava compreender a realidade por meios extra-racionais. A fé pertencia ao âmbito sobrenatural; os conhecimentos provinham da revelação divina. Pressupunham que o tempo era linear.  

O principal problema a ser enfrentado: Conciliar Deus e a Alma do Mundo. Deus é o invisível, o Bem; a Alma do Mundo, a matéria, o Mal. Não foram somente os cristãos que quiseram dar uma solução para a dualidade entre o bem e o mal. Na época, havia duas correntes: o gnosticismo e o neoplatonismo. (Temática Barsa) 

4.2. NEOPLATONISMO  

Segundo o neoplatonismo, o real é constituído de três hipóstases - o Uno, a Inteligência (Nous) e a Alma, sendo que as duas últimas procederiam da primeira por emanação. As suas teses podem ser assim resumidas: absoluta transcendência do ser divino, a emanação e o retorno do mundo a Deus pela interiorização progressiva do homem. 

A emanação é empregada por Plotino (205-270), um neoplatônico, como um processo pelo qual uma coisa é causada por outra, que a determina ou a contém como princípio. Exemplo: uma flor emana perfume, um corpo luminoso emana luz. Plotino explica, assim, a criação do mundo por meio de uma série de emanações de um princípio supremo, o Um ou Deus, que exclui qualquer multiplicidade. (Temática Barsa) 

4.3. GNOSTICISMO  

Para defender a pureza angélica, os gnósticos de todos os tempos inventaram teorias que davam sustentação aos seus anseios. Muitos gnósticos negaram a corporeidade de Jesus, imputando-lhe um corpo astral. Valentim (c. 160 d.C.) dizia: “Jesus comia e bebia de forma especial, sem excretar a comida. Tão grande era a força de seu poder de evitar a excreção que os alimentos não apodreciam nele, pois ele mesmo era indefectível e incorruptível”. 

5. DEMIURGO, AUTOCONHECIMENTO E CONTRIBUIÇÃO DE ALGUNS GNÓSTICOS  

5.1. DEMIURGO 

Os gnósticos deram o nome de Demiurgo ao criador do Mundo dos sentidos. O Deus supremo concedeu ao homem a alma racional; o Demiurgo só podia conceder-lhe o princípio mais fraco (psique). Porém, o poder do mal no corpo material, e a influência hostil do Demiurgo, meramente sensitivo, puseram obstáculo ao desenvolvimento desse fator mais elevado, não podendo o Demiurgo levar as criaturas ao conhecimento da verdadeira divindade. (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira) 

5.2. AUTOCONHECIMENTO  

autoconhecimento, que é a premissa básica do gnosticismo, não passa de um escapismo, como nos ensina Martin Burckhardt, em “Pequena História das Grandes Ideias”.  

Como a gnose passa a ser um escapismo? Quando ela se torna uma religião da razão. Entre os pitagóricos, os números eram a origem de todas as coisas. Os gnósticos não se contentam com a afirmação de Platão de que somos sombra do mundo espiritual. Para eles, o paraíso é aqui e agora. Mas, se é assim, como o ser humano desceu ao vale de lágrimas?  Diante dessa pergunta, que não mais gira sobre o autoconhecimento, mas sobre a estilização como anjo, entram em cena as duas forças que se combatem: de um lado o ser espiritual, racional e puro; do outro, a carne pecadora. Como se pressupõe que a carne é fraca, quer-se encontrar o vilão de todos os pecados. Daí, o demoníaco, diabolon, antítese da divindade. 

5.3. CONTRIBUIÇÃO DE BASÍLIDES E VALENTINO  

Basílides, um gnóstico que pregou em Alexandria entre os anos 120-140, oferece uma resposta a esse extremo dualismo estabelecendo os princípios da luz, causa do Bem, e das trevas, origem do Mal. As trevas não foram absorvidas pela luz, mas de seu contato nasceu uma luz aparente que é a do mundo, mistura do bem e do mal. 

Para Valentino, outro gnóstico do século II, o mundo é a consequência de um esforço incompleto, porque não é obra de Deus — o princípio supremo ou Pleroma —, mas de algumas das emanações produzidas pela divindade e que presidiram as sucessivas transformações do Universo. (Temática Barsa) 

6. TRADIÇÃO OCULTA E A GNOSE COMO MITO   

6.1. ENCONTRO DA ALMA ORIENTAL E DA ALMA OCIDENTAL 

No início da era cristã, o gnosticismo surge como uma reunião da alma oriental e da alma ocidental. Depois, a gnose seguirá o seu próprio curso, fundamentada na revelação cristã e na racionalidade grega. No decorrer da história, porém, nem todo o pensamento assentou-se na fé cristã e na racionalidade grega. Entram em cena as doutrinas enigmáticas do Orfismo (transmigrações sucessivas das almas) e o hermetismo (que está relacionada com a astrologia e a alquimia). (Temática Barsa) 

6.2. O APARECIMENTO DESSAS FORMAS NO OCIDENTE  

As tradições ocultas aparecem na Idade Média, no Renascimento, na Idade Moderna, com o Corpus hermeticus dos alquimistas, na medicina astrológica de Paracelso e nas obras literárias, como por exemplo, em Fausto, de Goethe. Mais presentemente, estão nos domínios da teosofia, ou foram objeto de uma profunda exploração por parte da psicologia de C. G. Jung. (Temática Barsa) 

6.3. MITO GNÓSTICO  

O mito gnóstico aparece na projeção refletida, ou seja, na objetivação do destino da essência humana através do conhecimento de si, que é o começo da salvação. O pseudo-mito está em fixar o processo de salvação que a gnose propõe.  

Observe o mito da queda, segundo o qual a alma humana teria decaído de um estado original de perfeição. Orígenes, por exemplo, explicou a formação do mundo sensível a partir da queda de substâncias intelectuais que habitavam o mundo inteligível. Esta queda foi o resultado da preguiça e da aversão ao esforço na prática do bem. Renouvier, no mundo moderno, retoma esta tese dizendo que o homem saiu livre das mãos de Deus, mas como criatura livre, perdeu-se no erro. Deverá, assim, passar por provas dolorosas para retornar à harmonia original do universo. 

7. CONCLUSÃO 

O gnosticismo busca o encontro com Deus, o Uno. Esta busca está centrada no conhecimento de si, base da gnose. Para tanto, utiliza-se de tudo o que possa facilitar a interiorização do ser humano: preceitos cristãos, as retortas alquímicas e a astrologia. O objetivo maior é diminuir a distância que há entre o homem (limitado) e Deus (o onipotente).  

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 

BURCKHARDT, Martin. Pequena História das Grandes Ideias: Como a Filosofia Inventou nosso Mundo. Tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2011.

FRIES, Heinrich (Org.). Dicionário de Teologia: Conceitos Fundamentais da Teologia Atual. Tradução coordenada por Felix Pastor e J. B. Libânio. São Paulo: Loyola, 1970.

GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

TEMÁTICA Barsa - Filosofia. 

São Paulo, janeiro de 2013.

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