Fenomenologia e Espiritismo

1. CONCEITO DE FENOMENOLOGIA

Designação que remonta ao século XVIII, do estudo das “aparências” ou dos “fenômenos” (em sentido kantiano): o seu emprego específico por Hegel deriva daqui.

Nestas obras de dupla leitura, Hegel descreve historicamente e psicologicamente as “aparições” pelas quais o espírito passa da sensação individual até a idéia absoluta encarada pela razão universal.

Hoje diz-se apenas do método e do sistema (fenomenologia transcendental) próprias de Husserl e dos seus sucessores.

Trata especificamente do problema da redução do “eu transcendental” (1).

2. A REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA

O significado autêntico da redução consiste em trazer à luz uma zona do ser onde subjetividade e objetividade se envolvem uma na outra, e onde, no limite, são indissociáveis.

Husserl apresenta-a como um simples por entre parêntesis do mundo.

Trata-se apenas de reservar o nosso juízo existencial: “o mundo continua a aparecer-me como até então me surgia, mas, na atitude reflexiva que me é própria enquanto filósofo, já não efetuo o ato de crença existencial da experiência natural; deixo de admitir como válida esta crença, ao mesmo tempo, ela se conserve” (2).

3. O ESPÍRITO

É aquela Unidade recortada do Princípio Inteligente que, através do processo natural de interação dos dois elementos capitais do Universo, se desencadeia, ganhando individualidade, cada vez mais marcante, e assim, liberto e responsável, transita um tanto consciente, amparado pela Lei da Harmonia Universal, no curso irredutível e inalterável da vida, em manifesta e infinita atualização de suas potencialidades, sob a salvaguarda do Pensamento Criador (3).

4. O PERISPÍRITO

A Ciência Espírita desentranha da fenomenologia do Espírito a noção de Perispírito e todas as funções características da sua natureza, em intuição plena da razão, e, assim, pode, com extrema realidade, apresentar ao Conhecimento Geral o Homem em sua intrínseca individualidade ternária do Espírito, Perispírito e Corpo Biológico.

A Energia Vital - Fluido - é a essência da matéria orgânica. A substância constitutiva do Perispírito tem por fundamento a Energia Vital.

Assim, pois, a Vida se manifesta, conseqüentemente, pela interação da substância vital sob a orientação do Princípio Inteligente, já agora manifesto em expressão entelequial, como Espírito, o Ser Racional da Criação, a expressão maior conhecida do homem (3).

5. FENOMENOLOGIA MEDIÚNICA

Na paranormalidade e na fenomenologia mediúnica, o Perispírito exerce a função mediadora.

É ele que recebe os estímulos volitivos do Espírito comunicante, passando-os, depois, em ordem, à mente do médium que os interpreta e transmite ao exterior, por gestos, palavras ou sinais convencionais.

É ele que sai como pessoa de si mesmo ou de outrem, e se manifesta, à distância, pela própria presença tangível ou não, no cumprimento de uma incumbência. Uma participação autêntica, mas  nem sempre identificável (3). 

6. NOVO SOL FILOSÓFICO

Com o advento do Espiritismo, levanta-se, no horizonte, um novo Sol filosófico para renovar a filosofia, mas é preciso que a filosofia o reconheça.

Chama-se Filosofia Espírita, cuja idéia se encontra entranhada na tradição a partir da Grécia Antiga, no realismo, passou pelo idealismo e, agora, aparece com uma nova concepção do homem e do Universo: uma cosmovisão que envolve a Cosmossociologia (3).

 

FENOMENOLOGIA E ESPIRITISMO

Fenomenologia é definida como “um estado puramente descritivo dos fatos vividos de pensamento e de conhecimento”. Hegel, na sua obra Fenomenologia do Espírito (1807), expõe que o progresso da consciência se realiza de forma dialética até atingir o saber absoluto; Kant, por outro lado, separa os juízos “a priori” (essências) e os juízos “a posteriori”. Somente em Husserl, a fenomenologia toma o sentido corrente e específico: “o fenômeno constitui, pois, a manifestação do que é, aparência real e não aparência ilusória”.

A fenomenologia, portanto, para Husserl e seus seguidores, significa uma redução do “eu transcendental”. Nela, supõe-se que os dados da consciência relativos aos fenômenos, não podem estar separados da essência. O grande desafio do ser humano é captar a essência que está embutida na existência. Neste mister, cabe-nos renunciar aos dogmas a aos preconceitos, tala qual fizeram Descartes, Hume e outros.

A fenomenologia, dentro da ótica espírita, pode ser visualizada pela análise do Espírito, do Perispírito e da Mediunidade. O Espírito é a essência primeira, o princípio inteligente, que na fase humana adquire o pensamento contínuo, a razão e o livre-arbítrio. A cada nova existência, torna-se mais consciente das verdades eternas, o que lhe capacita crescer, eficazmente, em sabedoria e virtude. 

O Perispírito, formado pelo fluido cósmico de cada globo, é o elo de ligação entre o Espírito e o Corpo Físico. Nele, encontra-se a resolução de muitos problemas da nossa atual existência. O seu campo mental está impregnado, não só de nossas ações passadas, como também de nossas perspectivas futuras. Por isso, embora haja o esquecimento do passado, temos as intuições e as inspirações, que nos orientam acerca das decisões que devemos tomar.

A mediunidade, por último, mostra-nos que as essências do mundo espiritual podem se comunicar com as essências do mundo material. O perispírito é o principal intermediário do contato mediúnico. Através dele, nota-se a interposição do Espírito desencarnado com o encarnado, dando-se a errônea impressão, aos videntes, de que um “incorpora” no outro. 

A reflexão, desprovida de interesses pessoais, faculta-nos analisar qualquer tema sob a ótica espírita. Isto auxilia-nos a melhorar substancialmente a nossa cosmovisão transcendental da vida.

QUESTÕES

1) Defina Fenomenologia.

2) O Que se entende por redução fenomenológica?

3) O que é Fenomenologia do Espírito?

4) Que função exerce o perispírito no fenômeno mediúnico?

TEMAS PARA DEBATE

1) Redução do “eu transcendental”.

2) Fenomenologia e Espiritismo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

(1) ENCICLOPÉDIA.

(2) BONOMI, A.  Fenomenologia e Estruturalismo.

(3) SÃO MARCOS, M. P.  Filosofia Espírita e seus Temas.

São Paulo, dezembro de 1996

Copyright © 2010 por Sérgio Biagi Gregório
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