René Descartes

Penso, logo existo."
Discurso do Método 

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Dados Pessoais. 3. Considerações Iniciais. 4. Sonho Premonitório. 5. Cartesianismo. 6. Filosofia fora da universidade. 7. As Matemáticas como Modelo. 8. A Intuição e a Dedução. 9. As Regras do Método. 10. A Dúvida Metódica. 11. "Penso, Logo, Existo". 12. Conclusão. 13. Bibliografia Consultada. 

1. INTRODUÇÃO

Quem foi Descartes? Qual a sua contribuição para a história da filosofia? O que significa a dúvida metódica? Descartes e cartesianismo são a mesma coisa? 

2. DADOS PESSOAIS 

René Descartes (1596-1650) nasceu em La Haye, França, pertencendo a uma família de prósperos burgueses. Estudou no colégio jesuíta de La Fléche, na época um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino europeu. Foi soldado, esteve sob as ordens de Maurício de Nassau. Participou de várias campanhas militares. As obras de Descartes são de considerável extensão. As mais importantes são: Regras para a Direção do Espírito (1628), O Discurso do Método (1637) e Meditações Filosóficas (1641). (Jerphagnon, 1982) 

3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS 

O ponto de partida para Descartes é a busca pelas certezas, o que nunca é uma questão fácil, pois os sentidos podem ser enganados. O método que ele propõe é conhecido como dúvida hiperbólica - "hiperbólica" no sentido de "extrema". 

Na Antiguidade e na Idade Média, o método era dedutivo. Na Idade Moderna, o método passa a ser indutivo sem, contudo, desprezar de todo o método dedutivo. Francis Bacon (1561-1626) ao apresentar o seu Novum Organum, em que enfatiza o empirismo nas ciências, isto é, o conhecimento passa a ser construído partindo-se do particular para o geral. René Descartes insere-se nesse novo contexto da ciência.  

4. SONHO PREMONITÓRIO 

A dez de novembro de 1616, o jovem Descartes teve um sonho premonitório. Sonhou que o Espírito da Verdade o visitara e, reverente, tal como é natural à Entidade de sua estirpe, comunicou-lhe que lhe competia a missão de edificar uma "Ciência Admirável", cujas coordenadas lhe trouxe em outra visita onírica. Houve, ainda, uma terceira, concluindo o esclarecimento devido. Ao acordar, preocupado com a responsabilidade de tão grande missão, pediu a Deus que o amparasse a fim de que pudesse fielmente cumprir a grande tarefa, tão acima de suas parcas forças. (São Marcos, 1993, p. 76)  

5. CARTESIANISMO 

O cartesianismo - de Cartesius, nome latinizado de Descartes - encontrou de imediato numerosos seguidores, a ponto de se impor na Europa continental frente ao empirismo dos britânicos. 

cartesianismo – proveniente de Descartes – é considerado, por muitos historiadores da filosofia, como a passagem da filosofia do renascimento à moderna. Descartes, em seu Discurso do Método, enfatiza as duas armas necessárias à concretização do seu programa de conhecimento: liberdade do arbítrio e a disciplina consciente a que deve livremente se submeter para conhecer segundo a razão. Ao lado desses dois, acrescenta um terceiro: Deve haver uma razão em nós e no mundo, sem o que não seria possível nem proveitoso dispor de nossa liberdade e de nossa disciplina para conhecer. 

6. FILOSOFIA FORA DA UNIVERSIDADE 

A filosofia de Descartes foi desenvolvida fora da universidade. Por isso, suas críticas ferrenhas aos postulados escolásticos, ligados à tradição. Começou com correspondências, que enviava a vários pensadores da época. Somente depois, transformou essas discussões num tratado. Além do mais, o Discurso do Método foi escrito originariamente em francês, contrariando o hábito da época, que era o de escrever textos filosóficos e científicos em latim. 

7. AS MATEMÁTICAS COMO MODELO 

Descartes toma as matemáticas como modelo ou paradigma de suas investigações filosóficas e do conhecimento em geral. É nas matemáticas que a razão encontra um campo próprio, um terreno em que não se deve submeter a nada além de sua própria lei, sua maneira própria e natural de proceder. 

Em primeiro lugar, na ciência matemática a razão, com todo o direito, é plenamente auto-suficiente. As proposições matemáticas não dependem da experiência, são "verdades da razão", e isto quer dizer que possuem uma validade universal e absoluta. Um triângulo, por exemplo, sempre terá três lados, e isto, em nenhum momento poderá ser desmentido pela experiência. Devido a essa auto-suficiência, a razão nas matemáticas só aceita como verdadeiro o que se apresenta a ela com clareza. A clareza e a simplicidade das matemáticas se convertem naquilo a que aspiram todas as outras ciências. Finalmente, as matemáticas mostram que a razão procede dedutivamente, deriva novas ideias a partir de primeiros princípios evidentes. (Temática Barsa) 

8. A INTUIÇÃO E A DEDUÇÃO 

Dois atos fundamentais nos conduzem à verdade: a intuição e a dedução. 

A intuição é o conceito, fácil e distinto, de um espírito puro e atento, de que nenhuma dúvida poderá pesar sobre o que nós compreendemos.

A dedução é apenas uma série de intuições - e, como se pode sempre esquecer um momento da série, será necessário pela imaginação e pela memória habituarmo-nos a repassar cada vez mais rapidamente no nosso espírito os termos da dedução, até que leve a uma "quase intuição" (Jerphagnon, 1982).

9. AS REGRAS DO MÉTODO

Descartes se propõe buscar a solução a partir do problema. Desejava encontrar, por si mesmo, uma solução evidente que permitia reorganizar nossos juízos e separar neles o falso do verdadeiro. Dizia: "Na menor dúvida tome algo por falso"; "prefira errar dizendo que uma coisa é falsa a errar dizendo que ela é verdadeira". Daí, as suas quatro célebres regras, cujo objetivo era auxiliar a resolução de qualquer problema, porque as regras tinham um caráter geral e não técnico. 

1.ª) Só admitir como verdadeiro o que parece evidente, evitar a precipitação assim como a prevenção; 
2.ª) Dividir o problema em tantas partes quantas as possíveis (é o que se chama regra de análise); 
3.ª) Recompor a totalidade subindo como que por degraus (regra da síntese); 
4.ª) Rever o todo para se Ter a certeza de que não se esqueceu de nada e que, portanto, não há erro. (Jerphagnon, 1982) 

10. A DÚVIDA METÓDICA 

Descartes analisa o conhecimento vigente e conclui que nada se lhe oferece, de modo indubitável, sobre o que possa fundamentar o seu trabalho. Tem que buscar alguma coisa fora da tradição, uma idéia, uma única que seja, mas que resista a todas as dúvidas. Toma como paradigma a geometria que partindo de algumas proposições certas em si mesmas, descobre outras verdades e esgota todas as possibilidades; também a filosofia deve, de igual modo, descobrir e demonstrar as suas verdades, dedutivamente, partindo de algumas proposições certas, indubitáveis. O edifício filosófico que lhe compete estruturar a de assentar, sobre uma verdade contra a qual nenhuma dúvida, a mínima que seja, possa pairar. (São Marcos, 1993, p. 77)

Em suas regras, chama-nos a atenção sobre a precipitação e a prevenção, dois graves erros que cometemos na busca do conhecimento. A precipitação é a tendência de julgar mais rápido do que o recomendável; a prevenção, a tendência a evitar a responsabilidade de um juízo, seguindo uma opinião pré-fabricada. Toma, assim, a resolução de se desfazer de todas as opiniões que recebera até então. Faz tábua rasa e começa o seu labor para conhecer a verdade das coisas.

11. "PENSO, LOGO, EXISTO"

Seu método inclui a dúvida metódica. Como se explica? Parte do conhecimento centrado em si mesmo. Dizia: “Cogito ergo sum”, penso, logo existo. Mas o cogito, ao evidenciar a existência de quem pensa, permite estabelecer o seguinte raciocínio: se eu existo, sei que sou finito. Porém, a idéia do finito implica ao mesmo tempo a do infinito. Para Descartes, o infinito é Deus. Descobre Deus pela sua própria razão e não vindo de fora como o Deus de Platão e dos escolásticos.

Minha existência como sujeito pensante não é somente a primeira verdade e a primeira certeza: é também o protótipo de toda verdade e de toda certeza. Tudo quanto eu perceber com a mesma evidência com que percebi que sou um sujeito pensante será verdadeira e, portanto, poderei afirmá-lo com certeza inquestionável. 

12. CONCLUSÃO

Em suas lucubrações filosóficas, diz que o pior precipitado não é aquele que erra dizendo "isso é falso"; é o que erra dizendo "isso é verdadeiro". Afirma que há apenas um instrumento para resgatar as verdades que porventura tenham sido rejeitadas inicialmente: são as evidências. Em seu modo de ver as coisas, achava que somos livres para aceitar o falso, para errar. Podemos, ainda, impor os nossos erros aos outros, bastando termos força ou engenho suficientes para isso.

13. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

JERPHAGNON, L. Dicionário das Grandes Filosofias. Lisboa, Edições 70, 1982.

SÃO MARCOS, M. P. Noções de História da Filosofia. São Paulo, FEESP, 1993.

TEMÁTICA BARSA (Filosofia). Rio de Janeiro: Barsa Planeta, 2005. 

São Paulo, maio de 2013.

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